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Varejo paulista recua 5,7% enquanto e-commerce avança e pressiona transformação do setor

Juros elevados, endividamento e mudança no comportamento do consumidor colocam em xeque modelos tradicionais de operação; para Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara, eficiência e integração entre canais ganham importância

O comércio varejista atravessa uma transformação que vai além dos efeitos da conjuntura econômica. Juros elevados, endividamento de empresas e famílias e mudanças na forma de consumir têm aumentado a pressão sobre o setor e colocado em evidência as limitações de modelos tradicionais de operação. No Estado de São Paulo, o faturamento acumulado do varejo no primeiro semestre apresentou retração de 5,7% na comparação interanual, equivalente a R$44,7 bilhões. O recuo alcançou oito dos nove principais segmentos analisados.

Os dados integram uma análise realizada pelo Núcleo de Economia do Sincomercio Araraquara, a partir de indicadores, pesquisas e levantamentos sobre o desempenho recente do comércio. O estudo aponta que a pressão enfrentada pelo setor resulta da combinação entre fatores macroeconômicos e uma mudança estrutural na relação do consumidor com o varejo.

Entre os segmentos mais afetados estão eletrodomésticos, eletrônicos e lojas de departamento, com retração de 25,6%. A desaceleração também chegou a atividades ligadas ao consumo básico: os supermercados registraram queda de 5,1%.

Ao mesmo tempo, empresas e consumidores convivem com níveis elevados de endividamento. Dados reunidos no material “Panorama do Comércio”, da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), apontam cerca de 9,1 milhões de CNPJs negativados no país, que acumulam mais de R$230 bilhões em dívidas. Segundo o Banco Central, os atrasos superiores a três meses chegaram a R$86,1 bilhões no segundo trimestre, o maior volume registrado desde o início da série histórica. A inadimplência afeta especialmente os pequenos e médios negócios, que respondem por 75% do valor em atraso.

Do lado das famílias, 75% dos lares paulistas estão endividados e 20,4% inadimplentes. A combinação entre orçamento comprometido, restrição ao crédito e juros elevados aumenta a cautela e favorece o adiamento de compras, principalmente aquelas que dependem de financiamento.

Para Maria Clara Kirsch, economista do Sincomercio Araraquara, o cenário exige que o empresário olhe para além das oscilações de curto prazo.

“O desafio é não tratar esse momento apenas como um período de vendas mais fracas à espera de uma retomada. Há uma mudança na forma como o consumidor pesquisa, compara e decide onde comprar. Isso exige do varejista uma revisão permanente da operação e da maneira como se relaciona com esse consumidor.”

Comércio eletrônico amplia pressão competitiva

A mudança fica ainda mais evidente quando se observa o avanço das vendas digitais. Segundo dados da FecomercioSP reunidos pelo Núcleo de Economia, o e-commerce cresceu 20% em 2025. Após o impulso provocado pela pandemia, o levantamento aponta que a procura por compras online seguiu avançando nos anos posteriores, com crescimento de cerca de 10% ao ano. São Paulo concentra 55,8% das vendas realizadas pela internet no país.

Nesse ambiente, preço, conveniência e facilidade para comparar ofertas passam a disputar espaço com vantagens historicamente associadas às grandes estruturas físicas. Para empresas com elevado número de lojas, funcionários e custos fixos, a combinação entre despesas maiores e consumo mais seletivo reduz as margens e limita a capacidade de investimento.

Isso não significa, porém, o desaparecimento da loja física. A tendência apontada pela análise é de integração entre diferentes canais e de uma operação mais eficiente, capaz de acompanhar um consumidor que transita entre o ambiente físico e o digital antes de tomar sua decisão de compra. Nesse processo, também ganha espaço a revisão do tamanho e da função das estruturas físicas, de acordo com a realidade de cada operação e sua integração aos canais digitais.

Estoque deixa de ser apenas disponibilidade e passa a representar custo

Outro ponto de atenção está na gestão dos estoques. Se no varejo tradicional manter grande variedade de produtos e abastecer diferentes pontos de venda representava uma vantagem competitiva, em um cenário de juros elevados e consumo mais seletivo o excesso de mercadorias pode significar capital imobilizado, necessidade de liquidações e redução das margens.

Para Antonio Deliza, presidente do Sincomercio Araraquara, a capacidade de gestão tende a assumir peso ainda maior nas decisões das empresas.

“Nesse novo ambiente, crescer não significa necessariamente aumentar a estrutura. O ganho pode estar em fazer a operação existente produzir mais resultado, com decisões baseadas em informação, melhor leitura da demanda e capacidade de ajustar rapidamente estoques, canais e custos.”

O cenário também cria um efeito em cadeia. A retração do consumo pode provocar acúmulo de estoques e levar estabelecimentos a reduzir pedidos. A menor atividade, por sua vez, interfere nas decisões de contratação e, consequentemente, na renda disponível para consumo. A análise indica ainda que uma melhora da conjuntura macroeconômica, isoladamente, não elimina os desafios estruturais: eficiência operacional, gestão de estoques, integração de canais, uso de dados e controle de custos tendem a permanecer no centro das decisões do varejo.

(Grupo Inca – Fernanda Chiossi/Fernanda Franco)

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