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“Sempre me senti diferente”: por que mais adultos investigam autismo e TDAH

Especialista em avaliação neuropsicológica explica por que cresce o número de diagnósticos tardios e como o laudo funciona como ferramenta de autoconhecimento, adaptação e planejamento de vida e não como um “rótulo limitante”

Cada vez mais adultos procuram avaliação neuropsicológica em busca de respostas para dificuldades que carregam há décadas: sensação de “não se encaixar”, sobrecarga constante, crises emocionais, conflitos no casamento e no trabalho. Muitos chegam ao consultório já com diagnósticos prévios de ansiedade ou depressão, mas descobrem, na verdade, traços de autismo ou TDAH não identificados na infância.

Os números ajudam a entender a dimensão do fenômeno. Segundo o Mapa Autismo Brasil, 2,4 milhões de pessoas têm algum transtorno do espectro autista no país, mais de 1% da população. A pesquisa, que ouviu 23.632 pessoas de todos os estados, revelou que uma grande parcela de adultos segue sem diagnóstico. Além disso, o acesso a terapias pelo SUS é de apenas 15%, o que empurra grande parte dessas pessoas para a rede particular em busca de respostas.

“O laudo não limita: ele explica e abre caminho.” A frase é da psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa (CRP 06/106954), especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. “Muitos adultos chegam ao consultório depois de uma vida inteira se sentindo ‘errados’. Eles ouviram que eram tímidos demais, sensíveis demais, complicados demais. Quando o diagnóstico chega, não é uma sentença. É uma explicação que finalmente faz sentido.”

Por que o diagnóstico demora tanto?

Durante muito tempo, a imagem mais conhecida do autismo foi a de crianças com dificuldades bastante visíveis. Isso fez com que milhares de adultos jamais imaginassem que também poderiam estar no espectro. No caso do TDAH, o cenário é semelhante: o transtorno era visto como “coisa de criança agitada”, ignorando manifestações mais sutis, especialmente em meninas e mulheres.

“O autismo e o TDAH são transtornos do neurodesenvolvimento. Isso significa que os sinais estão presentes desde a infância, mesmo que não tenham sido identificados na época”, explica a Dra. Luanda. “O problema é que, durante décadas, a sociedade e até a medicina não estavam preparadas para reconhecer essas características em quem ‘dava conta’ de estudar, trabalhar e ter filhos.”

Um dos fatores mais citados pela literatura é o masking ou camuflagem social: estratégias que pessoas neurodivergentes desenvolvem para disfarçar ou compensar características do espectro durante as interações sociais. Estudos mostram que essa prática é mais prevalente em mulheres, o que contribui para diagnósticos equivocados ou tardios, frequentemente confundidos com ansiedade ou depressão.

“Essas estratégias podem favorecer uma adaptação momentânea, mas têm um custo alto: exaustão emocional, ansiedade, depressão e sensação de perda de autenticidade”, afirma a especialista.

O que muda depois do diagnóstico?

Para muitos adultos, receber o diagnóstico de autismo ou TDAH na vida adulta é um processo libertador, mas também emocionalmente desafiador. Relatos de alívio são comuns: finalmente há uma explicação para dificuldades que antes eram atribuídas a falhas de caráter ou “frescura”.

“É comum ouvir relatos de alívio. Não porque a pessoa tenha se tornado alguém diferente, mas porque finalmente encontra uma explicação para experiências que a acompanharam durante toda a vida”, diz a Dra. Luanda. “Mas também há luto. Luto por um diagnóstico que não veio antes, por tratamentos que poderiam ter sido diferentes, por uma infância que poderia ter sido mais compreendida.”

Sinais que muitas vezes passam despercebidos

Identificar o autismo ou o TDAH na vida adulta requer atenção a uma série de sinais que podem não ser óbvios, mas que interferem na qualidade de vida. Entre os mais comuns estão:

  • Dificuldade em interpretar expressões faciais, tom de voz e linguagem corporal;
  • Preferência por rotinas rígidas e dificuldade em lidar com mudanças inesperadas;
  • Hiperfoco em interesses específicos, que muitas vezes são aprofundados com grande dedicação;
  • Sensibilidade aumentada ou diminuída a estímulos sensoriais (luzes, sons, texturas);
  • Dificuldade em iniciar e manter relacionamentos sociais e amorosos;
  • Ansiedade social intensa e necessidade de períodos de isolamento para recarregar energias;
  • Sensação constante de “estar fazendo mais esforço que todo mundo” para acompanhar o ritmo dos outros.

“Poucas pessoas percebem esse esforço. O mundo vê alguém que parece dar conta de tudo. Só quem sustenta essa imagem sabe o preço que ela cobra”, afirma a Dra. Luanda. “Há quem passe meia hora imaginando como uma conversa vai acontecer antes mesmo de sair de casa. Quem chegue a uma festa sorrindo e vá embora duas horas depois completamente esgotado, mesmo sem conseguir explicar por quê.”

Quando o diagnóstico dos filhos leva ao dos pais

Um fenômeno cada vez mais comum é o de pais e mães que descobrem o autismo ou o TDAH ao levar os filhos para avaliação. Estudos indicam que mais de 90% dos casos de autismo têm origem genética, o que explica a recorrência de traços do transtorno em famílias.

“Muitas pessoas só descobrem o transtorno depois de perceber que muitos dos comportamentos dos filhos mais velhos também faziam parte da própria vida”, relata a Dra. Luanda. “É comum ouvir: ‘Se esses meninos são autistas, você também é’.”

O que fazer depois do diagnóstico?

A partir do diagnóstico, ainda que tardio, o caminho a ser seguido é buscar informações detalhadas sobre como o TEA ou o TDAH afetam a vida adulta, além de apoio profissional por meio de terapeutas, aconselhamento psicológico e grupos de apoio.

“O diagnóstico não garante, por si só, acesso a suporte adequado. Mas é o primeiro passo para uma reorganização da vida”, afirma a Dra. Luanda. “Há diagnósticos que não mudam uma vida. Mudam apenas a maneira como olhamos para ela.”

Sobre a Dra. Luanda Rosa

Psicóloga e neuropsicóloga (CRP 06/106954), especialista em autismo na adolescência e na vida adulta. Atua há 15 anos com avaliação neuropsicológica de adultos, é coautora do livro Protagonismo Feminino e consultora em inclusão de pessoas autistas para empresas. Também participa de podcasts, palestras e eventos sobre autismo na vida adulta e neurodiversidade.

(Tinteiro Assessoria de Imprensa)

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