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Quando a criança sofre: transformar sofrimento em voz pode ser um caminho de elaboração

Psicanalista, pesquisadora, graduada em Psicologia e criadora da Teoria Freudo-Clariceana compartilha a experiência vivida com a filha Victória, de 11 anos, autora do livro Vick – Pela Minha Própria Voz, e reflete sobre a importância de acolher sem pressa, ouvir sem julgar e permitir que a criança encontre sua própria forma de expressão.

Vivemos tempos em que crianças enfrentam dores que nem sempre conseguem nomear: perdas familiares, situações difíceis dentro e fora de casa, exposição excessiva ao mundo digital, ansiedade e inquietações que muitas vezes se manifestam por meio de comportamentos, silêncios ou mudanças na maneira de se relacionar.

Diante disso, muitos pais se perguntam: como ajudar quando a criança ainda não consegue explicar o que sente?
A psicanalista, pesquisadora, graduada em Psicologia e criadora da Teoria Freudo-Clariceana, Fabíola da Rocha Marques, encontrou parte dessa resposta a partir de uma experiência vivida com a própria filha, Victória da Rocha Cabrera, de 11 anos.

Victória perdeu o pai ainda pequena e, ao longo dos anos, demonstrava em seu olhar, em suas emoções e em seu comportamento sentimentos que nem sempre conseguiam encontrar palavras. A experiência levou Fabíola a perceber que, diante do sofrimento infantil, nem sempre é necessário buscar imediatamente respostas ou explicações.

Às vezes, é preciso simplesmente criar espaço para que a própria criança encontre sua maneira de falar.
“Percebi que não bastava eu falar por ela. Era necessário permitir que ela colocasse para fora aquilo que sentia — inclusive aquilo que ainda não tinha nome”, conta Fabíola.

Foi nesse contexto que nasceu Vick – Pela Minha Própria Voz, livro escrito por Victória da Rocha Cabrera, no qual a menina transforma lembranças, sentimentos e descobertas em palavras, poesia e expressão.

Escrever também pode ser uma forma de expressão

A experiência levou Fabíola a uma reflexão que hoje compartilha com outras famílias: o sofrimento da criança não precisa ser imediatamente apagado, corrigido ou silenciado. Ele pode encontrar diferentes formas de expressão.
Escrever, desenhar, brincar, conversar ou simplesmente ter um adulto disponível para ouvir podem oferecer à criança recursos para dar forma àquilo que ainda não consegue explicar.

“Quando a criança passa por uma perda, por uma situação difícil ou por qualquer experiência que ainda não consegue compreender plenamente, oferecer um espaço para que ela se expresse, sem pressioná-la a encontrar respostas imediatamente, pode ser uma forma muito importante de acolhimento”, explica.

Para Fabíola, a expressão não precisa acontecer necessariamente pela fala. Cada criança encontra sua própria linguagem.

“A escrita, o desenho e a fala livre podem oferecer caminhos para que a criança dê forma àquilo que sente e ainda não consegue nomear. O adulto não precisa ter todas as respostas. Muitas vezes, estar presente e verdadeiramente disponível para escutar já representa muito.”

No caso de Victória, essa possibilidade de expressão ganhou uma forma concreta: um livro.

Ao escrever sua própria história, a menina não apenas registrou uma experiência vivida, mas encontrou uma maneira particular de organizar lembranças, sentimentos e percepções.

Para Fabíola, esse processo também trouxe uma reflexão sobre a importância de não retirar da criança o direito de construir sua própria narrativa.

Conhecimento que dialoga com a experiência

Essa perspectiva também se relaciona à trajetória acadêmica e intelectual de Fabíola.

Graduada em Psicologia pela Saint Leo University, nos Estados Unidos, Fabíola foi reconhecida duas vezes na Lista do Reitor por seu desempenho acadêmico durante a trajetória universitária. Sua formação também inclui estudos e pesquisas voltados à compreensão da mente humana, além de produção autoral na área da experiência psíquica.
É criadora da Teoria Freudo-Clariceana do Inconsciente — Uma Psicanálise do Indizível, trabalho registrado na Fundação Biblioteca Nacional e posteriormente publicado em revista científica.

A teoria propõe uma reflexão sobre aspectos da experiência psíquica que nem sempre encontram representação imediata em palavras, aproximando conceitos da tradição psicanalítica da literatura de Clarice Lispector.

“Nem tudo aquilo que sentimos consegue chegar à consciência de maneira organizada. Às vezes, o que não conseguimos dizer aparece em um desenho, em uma história, em uma mudança de comportamento, em um silêncio ou em uma criação. Por isso, precisamos estar atentos às diferentes formas pelas quais uma criança pode expressar sua experiência.”

A importância de não falar pela criança

Para Fabíola, uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos adultos é a tendência de interpretar rapidamente aquilo que a criança sente ou tentar falar em seu lugar.

“Temos uma necessidade muito grande de explicar o que a criança está sentindo. Mas existe uma diferença entre interpretar por ela e oferecer condições para que ela própria encontre uma maneira de se expressar.”

Essa mudança de postura pode significar perguntas mais abertas, menos julgamentos e mais disponibilidade para ouvir.

Em vez de exigir que a criança diga imediatamente “o que está acontecendo”, o adulto pode transmitir uma mensagem simples:
“Você pode falar. Pode escrever. Pode desenhar. Pode chorar. Pode não saber explicar ainda. Eu estou aqui.”
A proposta não é deixar a criança sozinha diante do sofrimento, mas oferecer um ambiente no qual ela possa expressar aquilo que vive sem sentir que precisa encontrar rapidamente a resposta que o adulto espera.

Quando a dor encontra uma voz

A história de Victória também mostra como uma experiência difícil pode ganhar novos significados quando encontra espaço para ser expressa.

Aos 11 anos, a menina tornou-se autora de Vick – Pela Minha Própria Voz, transformando sua experiência em uma produção que carrega sua perspectiva e sua maneira particular de contar aquilo que viveu.

Para Fabíola, o aspecto mais importante não está apenas no fato de o livro ter sido escrito, mas no processo de permitir que a filha tivesse voz sobre a própria história.

“Minha filha precisou encontrar espaço para ser ouvida, para se expressar e para construir sua própria maneira de elaborar aquilo que viveu. Quando vejo sua história transformada em livro e sua voz alcançando outras pessoas, percebo que uma experiência difícil também pode ganhar novos sentidos quando encontra espaço para ser expressa.”

A experiência entre mãe e filha tornou-se, assim, uma reflexão maior sobre infância, sofrimento e escuta.

Uma mensagem para as famílias

Diante dos desafios que fazem parte da infância contemporânea — do luto e das mudanças familiares à exposição digital, às dificuldades escolares e às experiências emocionais que nem sempre são verbalizadas — Fabíola destaca alguns princípios que considera fundamentais:
A criança sente profundamente, mesmo quando não consegue explicar o que está acontecendo.

Nem todo sofrimento aparece em palavras. Comportamentos, brincadeiras, desenhos e outras formas de expressão também podem comunicar experiências internas.

Expressar-se pode ajudar a organizar a experiência vivida, permitindo que aquilo que parecia confuso encontre uma forma de representação.

O adulto não precisa ter todas as respostas. Muitas vezes, sua presença, disponibilidade e capacidade de escutar são pontos fundamentais para que a criança não se sinta sozinha diante do que está vivendo.

“Às vezes, o que uma criança mais precisa ouvir não é uma explicação, mas uma permissão: você pode sentir, você pode falar, você pode escrever, você pode não saber ainda. Eu estou aqui.”

A história de Victória, registrada em Vick – Pela Minha Própria Voz, deixa uma mensagem que ultrapassa sua própria experiência: quando uma criança encontra espaço para expressar sua história, ela também pode descobrir uma maneira própria de dar significado ao que viveu.


Sobre Fabíola da Rocha Marques
Fabíola da Rocha Marques é psicanalista, pesquisadora, graduada em Psicologia e criadora da Teoria Freudo-Clariceana do Inconsciente. É autora de trabalhos voltados à compreensão da experiência psíquica e do indizível e desenvolve produção autoral relacionada à Psicanálise, à subjetividade e às diferentes formas de expressão da vida psíquica.

Sobre Victória da Rocha Cabrera

Victória da Rocha Cabrera, 11 anos, é autora de Vick – Pela Minha Própria Voz, obra na qual registra, a partir de sua própria perspectiva, experiências, sentimentos, lembranças e descobertas.

Serviço
Espaço Terapêutico Revelando o Inconsciente
São Carlos/SP
Contato: (16) 99315-3341
E-mail: faby_rocha01@hotmail.com

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