Luis Gustavo Lara (*)
Nos últimos anos, uma imagem tornou-se onipresente nas redes sociais: o “antes e depois” do sorriso. Dentes escurecidos, desalinhados ou com pequenas imperfeições dão lugar, em poucos cliques de um carrossel, a uma arcada branca, alinhada e uniforme. Por trás de muitas dessas transformações está um dos procedimentos mais procurados da odontologia estética contemporânea: as chamadas lentes de contato dental.
Não se trata apenas de uma impressão de quem acompanha a rotina dos consultórios. A Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (SBOE) aponta as lentes de contato dental entre os procedimentos de estética bucal mais procurados atualmente no país. A exposição de celebridades e influenciadores digitais, que apresentam resultados padronizados como símbolos de beleza e sucesso, contribuiu para transformar o sorriso em mais um elemento de construção da imagem pessoal.
Os números também mostram como a estética ganhou espaço na odontologia brasileira. O Censo da Odontologia no Brasil, realizado pela Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO), com apoio do Conselho Federal de Odontologia (CFO), e apresentado no 42º Congresso Internacional de Odontologia de São Paulo (CIOSP), em janeiro de 2025, apontou que 86% dos cirurgiões-dentistas entrevistados realizam algum tipo de tratamento estético, categoria que reúne procedimentos como ortodontia, clareamento e lentes de contato. A estética deixou, portanto, de ocupar um espaço periférico e passou a integrar a rotina de grande parte dos consultórios.
O problema começa quando o desejo por um sorriso perfeito passa a se sobrepor à necessidade de preservar dentes saudáveis. A lente de contato dental não é, por si só, um problema. Quando corretamente indicada e executada, pode ser uma alternativa restauradora eficaz e, em determinadas situações, preservar mais estrutura dentária do que outros procedimentos restauradores. A questão está na indicação.
A odontologia também conhece o fenômeno do sobretratamento: a realização de um procedimento sem que exista uma necessidade clínica proporcional aos seus riscos e benefícios. Em tempos de redes sociais, esse risco ganha uma dimensão adicional. O paciente chega ao consultório não necessariamente com uma doença ou alteração funcional, mas com uma fotografia como referência. Quer reproduzir um sorriso que viu na internet, muitas vezes sem saber se sua anatomia, sua oclusão ou sua saúde bucal permitem aquele resultado.
É preciso lembrar que o dente natural não é uma tela em branco. Qualquer intervenção deve considerar sua estrutura, sua função e a relação com os demais elementos da boca. Quando há necessidade de desgaste, mesmo que pequeno, a decisão é irreversível: o esmalte removido não volta a crescer. A partir daí, aquele dente passa a fazer parte de um ciclo restaurador que poderá exigir manutenção, reparos e, eventualmente, substituição da peça ao longo da vida.
É justamente por isso que a pergunta mais importante diante de um paciente que deseja lentes de contato não deveria ser “qual sorriso ele quer?”, mas “qual é a forma mais conservadora de alcançar o resultado possível para aquele caso?”.
Se a queixa está relacionada à posição dos dentes, por exemplo, é preciso avaliar se a ortodontia pode resolver o problema sem intervenção restauradora. Se o incômodo é a coloração, o clareamento pode ser suficiente. Se a insatisfação está restrita ao formato de um ou outro elemento, um acréscimo pontual de resina composta pode produzir uma mudança significativa sem o mesmo grau de intervenção. A lente de contato deveria entrar nessa equação quando houver indicação e quando as alternativas mais conservadoras não forem capazes de atender adequadamente às necessidades do paciente.
Isso exige do cirurgião-dentista uma postura que nem sempre combina com a lógica imediatista das redes sociais: saber dizer não. O paciente pode desejar determinado procedimento, mas o desejo, isoladamente, não transforma uma intervenção em indicação clínica. Da mesma maneira, a odontologia estética não deveria ser conduzida como uma vitrine de metas comerciais. O melhor tratamento é aquele que atende às necessidades daquele paciente preservando, tanto quanto possível, sua estrutura natural.
Há ainda um segundo aspecto que merece atenção: a qualidade da execução. Um sorriso pode parecer perfeito em uma fotografia e, ainda assim, apresentar problemas que só aparecem no exame clínico. Um exemplo é o sobrecontorno, quando a restauração apresenta volume ou formato excessivo em relação à anatomia do dente e à região próxima à gengiva. Além de comprometer a naturalidade do resultado, esse excesso pode dificultar a higienização, favorecer o acúmulo de placa, contribuir para inflamação gengival e ainda favorecer o surgimento de mau hálito, já que a limpeza adequada da região entre o dente e a gengiva fica comprometida.
É uma contradição que merece ser encarada com seriedade: buscar um sorriso esteticamente perfeito e, no processo, criar condições que prejudiquem a saúde bucal. A aparência pode ser avaliada em segundos diante de um espelho ou de uma câmera. Já as consequências de uma intervenção inadequada podem aparecer meses ou anos depois.
A busca por um sorriso mais bonito não deve ser tratada como frivolidade. Estética também está relacionada à autoestima, à percepção que cada pessoa tem de si mesma e ao seu bem-estar. O problema surge quando a promessa de um padrão estético transforma dentes saudáveis em matéria-prima de uma intervenção desnecessária.
A odontologia evoluiu justamente para oferecer soluções cada vez mais conservadoras. Por isso, preservar estrutura dentária saudável não é uma postura antiquada nem uma resistência à tecnologia. É consequência do próprio avanço da profissão. Quanto mais conhecemos sobre a biologia dos tecidos, a função mastigatória e a longevidade dos tratamentos, maior deveria ser nossa disposição para intervir apenas quando necessário.
No fim, a questão não é ser contra ou a favor das lentes de contato dental. É saber quando elas fazem sentido. O sorriso perfeito das redes sociais dura uma fotografia. O dente natural, quando preservado, precisa durar uma vida. Essa diferença deveria pesar muito mais na decisão do que qualquer tendência estética do momento.
(*) É professor, especialista em concursos de Odontologia e co-fundador da Plataforma OdontoQuiz, referência nacional em preparação para concursos de Odontologia. Mestre em Odontologia pela PUC Minas, Especialista em Prótese Dentária pela UFMG e em Odontologia Legal pela ABO-MG.