Low carb em 2024? Talvez você precise reduzir o consumo de gordura, sugere estudo

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Um novo estudo da Nature pode ajudar a guiar as resoluções de Ano Novo: trabalho demonstrou que as dietas ricas em gordura têm um impacto negativo nos genes ligados não só à obesidade, ao câncer do cólon e ao intestino irritável, mas também ao sistema imune o e à função cerebral.

Reduzir o carboidrato tem sido quase um mantra repetido por diversas pessoas, em um momento em que explodem nas redes sociais receitas desbalanceadas, baixas nesse macronutriente (e com alto teor de gordura). E um estudo recente, publicado na revista Nature no começo de janeiro, questiona justamente o papel do excesso no consumo de gordura na alimentação. “O trabalho demonstrou que as dietas ricas em gordura afetam genes ligados não só à obesidade, ao câncer de cólon e ao intestino irritável, mas também ao sistema imune, à função cerebral e ao risco de COVID-19”, explica a Dra. Deborah Beranger, endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ). “Vale lembrar que o exagero desse macronutriente também pode acarretar em doenças metabólicas e sobrepeso, uma vez que a gordura é macronutriente mais calórico: cada 1g de gordura tem 9kcal, cinco a mais que as 4kcal do carboidrato e da proteína”, diz a médica.

Embora outros estudos tenham examinado os efeitos de uma dieta rica em gordura, este trabalho foi além do que se tinha até então. Os pesquisadores da Universidade da Califórnia – Riverside alimentaram os ratos com três dietas diferentes ao longo de 24 semanas, nas quais pelo menos 40% das calorias provinham da gordura. “Depois, analisaram não apenas o microbioma, mas também as alterações genéticas nas quatro partes do intestino. Um grupo de ratos comeu uma dieta baseada em gordura saturada de óleo de coco, outro recebeu óleo de soja modificado monoinsaturado, um terceiro recebeu óleo de soja não modificado rico em gordura poli-insaturada. Em comparação com uma dieta de controle com baixo teor de gordura, todos os três grupos experimentaram alterações preocupantes na expressão genética, que é o processo que transforma a informação genética num produto funcional”, explica a médica. “O que se diz popularmente é que dietas baseadas em vegetais são melhores para você e, em muitos casos, isso é verdade. No entanto, uma dieta rica em gordura, mesmo proveniente de uma planta, é um caso em que isso simplesmente não é verdade”, acrescenta.

O novo artigo documenta os muitos impactos das dietas ricas em gordura. Algumas das alterações intestinais não surpreenderam os pesquisadores, como alterações importantes nos genes relacionados ao metabolismo da gordura e na composição das bactérias intestinais. “Por exemplo, eles observaram um aumento de E. coli patogênica e uma supressão de Bacteroides, que ajuda a proteger o corpo contra agentes patogênicos”, explica a médica. Outras observações foram mais surpreendentes, como alterações nos genes que regulam a suscetibilidade a doenças infecciosas. O estudo identificou que genes de reconhecimento de padrões, aqueles que reconhecem bactérias infecciosas, foram afetados, juntamente com genes que ajudam o corpo a controlar a inflamação”, destaca. “Então, é um golpe duplo. Essas dietas prejudicam os genes do sistema imunológico do hospedeiro e também criam um ambiente no qual bactérias intestinais nocivas podem prosperar”, completa.

Apesar dos estudos terem sido realizados em ratos, e os resultados nem sempre se traduzem em humanos, ambos partilham 97,5% do seu DNA funcional. “Portanto, as descobertas são preocupantes, uma vez que o óleo de soja é o óleo mais consumido no Brasil e Estados Unidos e é cada vez mais utilizado em outros países, incluindo China e Índia. Já o óleo de coco vem sendo tratado, cada vez mais, como um ‘superalimento’, com efeito milagroso, o que não é verdade”, explica a médica. “É necessária alguma gordura na dieta, talvez 10 a 15%. Porém, a maioria das pessoas abusa desse consumo e o boom das dietas low carb/high fat (com baixo carboidrato e alto teor de gordura) sem indicação especializada de médica e nutricionista está a produzir efeitos adversos na população”, destaca a endocrinologista.

No entanto, a Dra. Deborah ressalta que ninguém deve entrar em pânico com uma única refeição. “É o hábito de longo prazo com alto teor de gordura que causou as mudanças observadas. Lembre-se de que os ratos foram alimentados com essas dietas durante 24 semanas. Em termos humanos, é como começar desde a infância e continuar até a meia-idade. Uma noite de indulgência não é o que esses ratos comeram. É mais como uma vida inteira de comida com alto teor de gordura. Dito isto, é interessante rever alguns hábitos alimentares, pois comer regularmente dessa maneira pode afetar o sistema imunológico e o funcionamento do cérebro”, finaliza.

FONTE: *DRA. DEBORAH BERANGER: Endocrinologista, com pós-graduação em Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro (SCMRJ) e pós-graduação em Terapia Intensiva na Faculdade Redentor/AMIB. Com cursos de extensão em Obesidade, Transtornos Alimentares e Transgêneros pela Harvard Medical School, a médica tem MBAs de Saúde e Qualidade de Vida, de Marketing e Branding Médico e de Mindset, todos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e curso de Obesidade e de imersão em Medicina Culinária pela Universidade de Campinas (UNICAMP). Fez Fellowship pela European Association for the Study of Obesity, em Portugal; é speaker dos laboratórios Servier, Novo Nordisk, Novartis, Merck, AstraZeneca, Lilly e Boehringer. Instagram: @deborahberanger

(Holding Comunicações)

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