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De mulheres, humor e ciência

Rosa Godoy (*)

Semana passada, o Boletim da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) veiculou a seguinte notícia: “Cientistas (…) acabam de descobrir uma base genética que pode explicar a maior incidência entre as mulheres, em relação aos homens, de problemas como distúrbios do humor e ansiedade ligada ao estresse. (…) os pesquisadores estudaram macacos Rhesus para determinar se as diferenças entre os sexos no gene do transporte da serotonina neurotransmissor que regula o humor poderiam influir nos efeitos de traumas infantis. Pesquisas anteriores verificaram que uma variante genética no gene do transporte da serotonina, conhecido como alelo S, estava associada com a depressão, mas apenas em indivíduos expostos a episódios traumáticos. Entretanto, a possível relação entre gênero, o alelo S e estresse ainda não havia sido determinada. (…) foram medidos os hormônios do estresse em 190 macacos rhesus jovens, com idades equivalentes às de 9 a 24 meses em termos humanos. Algumas das medidas foram tomadas após os animais terem sido isolados por 30 minutos. Os pesquisadores verificaram que entre os animais que tinham sido separados, as fêmeas com o alelo S tinham uma resposta maior ao hormônio do estresse em comparação com os machos. De acordo com os cientistas, os resultados sugerem que o gênero, a variabilidade genética e episódios traumáticos ocorridos na infância, como abuso ou abandono, podem interagir para influenciar a progressão e o surgimento de uma doença psiquiátrica”. “Nossos resultados sugerem a intrigante possibilidade de que as mulheres portadoras do alelo S [grifo meu] podem ser mais vulneráveis aos efeitos da adversidade precoce. Essa relação pode explicar a incidência crescente em mulheres de certas doenças ligadas ao estresse”, disseram os pesquisadores.

Só faltava esta! Agora a ciência prova que somos as mal-humoradas do pedaço e, por conta disso, mais expostas a doenças ligadas ao estresse. E como ficam os estudos que comprovam que as mulheres são mais vítimas das adversidades sociais que os homens? Na dissolução da família, por exemplo, compete às mulheres o cuidado das crianças, quase sempre sem a participação do homem, sendo obrigadas a assumir duas ou três jornadas de trabalho, consumindo nelas o tempo que deveria ser dedicado ao seu próprio cuidado. Isto só para citar um exemplo trivial. Haja estresse!

Concordo que os avanços científicos da Biologia ou da Genética devam iluminar a vida das pessoas na sua eterna busca aristotélica da felicidade, porém, tentar provar cientificamente (ou pelo menos biologicamente) o efeito de fatos sociais de tamanho peso, de maneira tão linear, é mais que pretensioso, sinceramente, chega à beira da falácia.

Se o problema se reduzisse ao “alelo S”, enfrentá-lo seria muito mais fácil que parece. Bastaria encontrar algo que “corrigisse” a base genética capaz de controlar o transporte da serotonina através dele. Ou seja, a solução também estaria no campo da Biologia ou da Genética. Gostaria de saber, no entanto, onde encontrar solução para as desgraças que permeiam a vida das mulheres, em especial, aquelas que contam apenas consigo mesma, para sua sobrevivência e de sua prole!

(*) É enfermeira e colaboradora do JA.

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