"O homem desperta e sai cada manhã pela estrada da vida, e na saída, leva uma crença vaga e indefinida de encontrar o ideal em alguma encruzilhada.
Foi em março ao findar das chuvas, quase na entrada do outono, quando a terra em sede requeimada, bebera longamente as águas da estação, que Fernão Dias Pais Leme entrou pelo sertão".
Também em março, na década de noventa, quando as primeiras neblinas tingiam de branco o verde da Pousada das Garças, e a brisa fazia rolar as folhas amarelecidas prenunciando a entrada do outono, que Roberto Dela Coleta e poucos pioneiros aqui se reuniram pela primeira vez.
A analogia é que o intrépido bandeirante era seduzido pela quimera das pedras verdes, bens materiais, enquanto o pequeno grupo que aqui aportou estava imbuído de um ideal mais nobre: estreitar os laços de amizade entre os frequentadores. Estes eram idealistas e sonhadores, vinham de diferentes plagas, de camadas sociais as mais variadas, mas, tinham um traço em comum, uma afinidade para que todos se tornassem amigos.
As primeiras reuniões foram acontecendo com um número reduzido de participantes, sempre patrocinados pelo pródigo e abnegado proprietário.
O tempo foi passando… A notícia dessas reuniões se espalhou pela cidade, até ultrapassar os limites do município.
Hoje nos constituímos num grupo bem maior, que espera ansiosamente a chegada da quarta-feira para relaxar depois de um dia de trabalho.
Aqui frequentam pessoas das mais diversas classes sociais e níveis de trabalho, todos iguais e vivendo harmonicamente.
Temos ainda a felicidade de contar com abnegados companheiros, os cozinheiros, sempre dispostos a dar tudo de si para que tenhamos deliciosas refeições. A eles o nosso agradecimento.
Nascer em São Paulo é um privilégio para muitos; morar em Araraquara é ser bafejado pela sorte do destino; mas frequentar o sítio do Roberto é uma benção de Deus. Se minha alma nasceu para a glória do sonho, os meus braços cresceram para a faina da terra. A vida é formada por contrastes que se chocam. Pássaros cantam sobre túmulos, como que em sua inocência, comemorando paradoxalmente a tristeza da morte.
Ela também, numa visão caleidoscópica, nos proporciona situações que valem por uma eternidade. E é num desses momentos que estamos vivenciando, quando entre amigos, festejamos os longos noventa anos de idade.
O poeta, numa demonstração de patriotismo, assim falou:
"Vinde ver, vinde ouvir, homens de terra estranha
O Brasil de minha alma atormentada e aflita
Cujo nome parece um grito de montanha
De quebrada em quebrada acordando o infinito".
Parodiando o cultor das letras eu diria:
Vinde ver, vinde ouvir, vinde conviver, homens de terra estranha, com a Pousada das Garças do nosso pródigo Roberto.
É aqui que os amigos se reúnem quando o sol poente tinge de vermelho e fimbria do horizonte.
É aqui que os mais diversos grupos musicais se apresentam, entoando suas canções, que nos transportam para o tempo feliz de nossa mocidade.
É aqui que conversamos, para tentar ajudar nos problemas dos companheiros.
É aqui que vibramos com o triunfo de algum frequentador ou membro de sua família.
É aqui que batemos palmas, quando algum de nossos descendentes vence a barreira dos temidos vestibulares.
É aqui ao cair da tarde, quando as garças vêm do ocidente, buscando novo clima onde pousarem, que contemplamos a silhueta branca, contrastando com a beleza azul do céu.
É aqui que na hora do sol se pôr, o pavão lá no fundo do quintal solta seu trinado melancólico, como se despedindo do dia que se finda e dando as boas vindas para aqueles que estão chegando.
É aqui nas noites silenciosas, quando o firmamento nada mais é que um manto negro, que escutamos o piar dos marrecos que se migram, buscando novos portos para sua sobrevivência.
É aqui que os luminares do saber, odontologia, direito, medicina, engenharia, arquitetura e outras ciências, humildemente se despojam de seus títulos universitários, para conviverem harmonicamente com aqueles menos letrados.
É aqui que o Renatinho, com toda delicadeza, uma de suas qualidades, percorre o salão de um lado para o outro, lembrando a algum associado sobre sua contribuição para aquele dia.
É aqui que comemoramos, quando um membro arranca mais uma folha do calendário, para festejar seu natalício. (Joel Silveira)