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Avenida Descalç

João Baptista Galhardo

Recentemente passando pela Avenida 7 de Setembro, com uns quarteirões em terra para receber seu terceiro sapato, tive vontade de colocar os pés naquele chão por onde tanto tempo descalço andei na minha infância. Anos 1940/1950.

Mergulhei no tempo e me vi dentro da enxurrada, mesmo com a advertência de minha mãe: "você vai pegar mijação".

Até hoje não sei que dermatose é essa. Encontrei-me no túnel do tempo passando pelos grandes armazéns da Avenida: Casa Lima, Casa Bersanetti onde foi fundado o Paulista Futebol Clube, a Casa Segnini, com senhor José e sua esposa no balcão na esquina da Rua Doze, Casa Santa Maria de Abdo e Amin (conheci seus pais) aonde ia de caderneta comprar manjubas secas e açúcar mascavo, o armazém de Felipe Meciano.

Vi, nesse retorno ao passado, D. Virgínia Trosdorf à frente de sua loja, os Monteiros no bar da Rua Doze, o Bar de Dimas Fattore, antes entre a Doze e a Treze, pai do Serrinha, de semblante bravo, mas coração de criança, o Bar de João Baptista Greco, o de Luiz Paronetto na esquina da Treze. A padaria do Carmo, antes Bepe De Chechi, depois os simpáticos Lima. A loja do Perches, o estabelecimento de Sebastião Colombo, antes banana depois sorvete. Mais para baixo Lorenzeti, Gambelli, o Bar do Waldomiro Fornazari e o do Salum, com o apetitoso baurú de carne, queijo e tomate. Farmácia São Paulo no canto oposto onde viria a do João Moda Francisco, além do Magnani e a do Bueno, com Michetti, seu eficiente auxiliar, próxima da Seis.

Com o tempo a Avenida mudou sua fisionomia, porém sem perder sua importância, nem o orgulho dos moradores. Eu habitava a última casa da última Rua (14) já vizinha da chácara do tio Pio (tio?). Meu, não.

Veio posteriormente primeira agência bancária Novo Mundo, gerenciada por José Carlos, depois nosso companheiro de Lions e o Cinema que elevou a moral do bairro.

A Avenida não tinha calçamento. Servia de caminho para boiadas. Os boiadeiros afinavam a ferradura de seus cavalos com a eficiência dos Saavedras, profissionais instalados onde depois foi o Posto 007. Fui amigo de Aristides. A Avenida era cheia de encanto.

Nos dias de quermesse os espaços da Rua eram utilizados para quem se dirigia ao Largo do Carmo porque as calçadas eram insuficientes. Todos a caminho da Igreja.

Largo de chão batido onde me aconselhava com a lua, com as estrelas e com a magia do vento. Eu vinha encontrar a banda da festa na Rua Nove. E seguia atrás dela até o local do coreto que a abrigaria.

Naquela Igreja fui batizado e crismado. Fui de uma Liga que precedia a dos Marianos. Ali casei e levei meus filhos para o batismo.

O catecismo era ministrado cada ano por uma Filha de Maria. À noite. Conforme a assiduidade e dedicação aos ensinamentos, as crianças recebiam um cartão com nota de um a cinco. E no final do ano, véspera de Natal a sacristia ficava lotada de presentes ofertados e as crianças enfileiradas em ordem decrescente de notas iam entrando uma a uma para escolha de um regalo. Após a missa os comunheiros em fila, desciam a Avenida Guaianazes (Djalma Dutra) até a Rua Cinco, virando à direita para a casa da generosa família de Gustavo Masiero que oferecia chocolate quente e bolo (podia repetir). A chocolatada e o presente me levaram à aventura de tentar fazer a "primeira comunhão" pela "segunda vez". Sabia que as professoras se sucediam.

Caminhou tudo bem até a confissão. Não tendo na consciência nenhum pecado, resolvi contar para o Padre o meu engodo. Engodo? Para chocolate com bolo e um presente?

De repente o Padre saiu do confessionário e cresceu na minha frente: "vou contar para a professora que você fez a primeira comunhão no ano passado…"

Não tive outra saída: "e eu vou falar pra todo mundo que o senhor conta para outros o que ouve em confissão".

Esnuquei o Padre. E fui de novo tomar chocolate com bolo.

jbgalhardo@uol.com.br

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