N/A

A vida ensina

João Baptista Galhardo

Ando devagar porque já tive pressa. Levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte. Mais feliz quem sabe. Só levo a certeza de que muito pouco eu sei. Eu nada sei. Conhecer as manhas e as manhãs. O sabor das massas e das maçãs. É preciso amor pra poder pulsar. É preciso paz pra poder sorrir. É preciso a chuva para florir. Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha. Ir tocando em frente. Como um velho boiadeiro levando a boiada. Eu vou tocando os dias pela longa estrada. Eu vou. Estrada eu sou. Todo mundo ama um dia, todo mundo chora. Um dia a gente chega, no outro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história. E cada ser em si carrega o dom de ser capaz de ser feliz.

Cochilando, tentava memorizar essa bela e inspiradíssima composição de Almir Sater e Renato Teixeira. Dormi. E sonhei que havia sido remetido para uns quatrocentos anos atrás, sem perder a noção do meu tempo, sabendo, também, que se tratava de um sonho do qual sairia em breve. Fui parar num lugar estranho. Casas de estilos diferentes. Distanciadas uma das outras. Ruas estreitas e descalças. Uns homens conversavam em tom elevado numa roda. Parecia que censuravam alguém. Vestimentas esquisitas. De repente um deles desgarra da turma e vem em minha direção. Rosto ovalado. De barba e bigode. Camisa aveludada. Colarinho plissado, parecido com o de arlequim. Calças curtas, com barras acima dos joelhos. Pernas cobertas com meias (?) compridas até às coxas. Sapatos sob fivelas. Ele olhou-me e num gesto convidou-me para andar com ele. Não estranhou minha roupa. E começou a falar em língua que eu entendia. Esbravejava:

– Quando escrevo humor me criticam. Dizem que são gracejos grosseiros. Quando são dramas inventam que não há clareza. Que não passam de metáforas incoerentes. Não tem importância! A vida vai lhes ensinar. Só a vida ensina. A existência é a maior escola que frequentamos.

Não tive dúvida de que eu estava diante de Shakespeare, o maior escritor da Inglaterra. Ele falava e eu ouvia. Tive vontade de interrompê-lo para dizer que quem escreve se despe em público e nunca é unanimidade. Quis lhe pedir que não ligasse para aquelas ofensas. Por certo com origem na inveja que existe desde Caim e Abel. Como não perdera a noção do meu tempo, quase lhe falei que ele seria admirado por centenas de anos depois de sua morte. Por certo não entenderia nada. E sem lhe dizer uma palavra o sonho acabou.

Não encontrei explicação para o que sonhara. Nunca fui um Shakespeareano, embora tenha lido e admirado algumas de suas obras. Não sei se estive ou não em Stratford onde ele nasceu e morreu precocemente em 1613 aos cinquenta e dois anos de idade. Instigado pela curiosidade consultei, depois do sonho, uma enciclopédia antiga. Deixou-me ela intrigado por registrar as críticas que ele me queixara. Para maior surpresa encontrei um escrito seu sobre o aprendizado da vida, onde ele diz: "Depois de algum tempo você aprende a diferença. A sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende de que amar não significa apoiar-se. E que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores."

É verdade. Deus nos dá uma moradia temporária para vivermos as quatro estações da vida: primavera, verão, outono e inverno, como no enigma da esfinge. Por que sonhei com o escritor? Não sei. Teria ligação com a composição que eu memorizava? Também não sei. Como ele mesmo diz, através de Hamlet (Cena V, Ato I) "Há mais coisas entre o céu e a terra…do que sonha nossa vã filosofia".

É melhor tocar a vida em frente, sem muitas indagações. A vida são deveres que nós trouxemos pra fazer em casa. Como diz Mário Quintana: "Quando se vê já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira… Quando se vê, terminou o ano… Quando se vê, passaram-se 50 anos. Agora, é tarde demais para ser reprovado… Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada inútil das horas… Dessa forma eu digo, não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo. A única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais".

Um dia a gente chega. E de improviso vai embora.

jbgalhardo@uol.com.br

Compartilhe :

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Ateliê Clubinho Gráfico: Bottons nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Arquitetando nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Ateliê Serigráfica nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Show nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Espetáculo de teatro neste sábado no Sesc Araraquara

CATEGORIAS