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Esses moços, pobres moços

Percival Puggina (*)

Num ambiente diferente deste em que o sistema educacional brasileiro se colocou, Paulo Freire não seria escolhido como patrono da Educação nacional, nem professores assumiriam como expressão de seu status profissional o título de trabalhadores em Educação.

Já naufragávamos nessas águas, em 2004, quando substancioso relatório da UNESCO intitulado “Perfil dos professores brasileiros”, constatou que 72% dos nossos trabalhadores em educação assumiam como sua principal função “formar cidadãos conscientes”. Apenas 9% priorizavam “proporcionar conhecimentos básicos” e não mais de 8% sublinhavam a importância de “formar para o trabalho”. Noutro item da mesma pesquisa, 64,5% dos professores tinham consciência, em grau alto e muito alto, de exercer um “papel político”. Infelizmente, não se requer nova investigação para saber que de lá para cá, ao longo dos últimos 12 anos, também nisso a situação só se agravou.

O Edital que em 2014 abriu o processo de inscrição e seleção de livros didáticos a serem utilizados em 2016 (PNLD 2016) determinava que as obras que tratassem das Ciências Humanas e da Natureza deveriam, entre vários outros quesitos, visar à formação de “cidadãos do século 21”, prontos para “lutar pela construção de uma sociedade mais justa, solidária, sem preconceitos e estereótipos”. Lutar tem presença obrigatória em todos os objetivos pedagógicos nacionais. Então, poderíamos andar mais por estas “lutas”, analisando os engajamentos dos sindicatos de professores, a exibição e a ocultação de livros didáticos no mundo acadêmico, os compadrios ideológicos na seleção para cursos de mestrado e doutorado e por aí afora. No entanto, valendo-me do sonoro verso de Lupicínio, é sobre “esses moços, pobre moços” que andam por aí, invadindo escolas, que desejo escrever. Eles são os alvos vulneráveis desse sistemático ataque ideológico.

A sociedade brasileira acabou de reproduzir nas urnas o que, intensamente, manifestou antes nas ruas do país.

Para onde se voltam os derrotados? A quem buscam para recompor seus efetivos de pessoal e seu mercado ideológico? Insidiosamente, valem-se da crise que geraram e promovem consumo ao seu catálogo de rótulos: neoliberalismo, desmonte, sucateamento, precarização, fascismo, golpe. E, com isso, mobilizam esses moços, pobres moços para invadirem escolas.

Não mais do que um punhado participa das invasões e centenas de milhares ficaram prejudicados com a postergação das provas do ENEM.

(*) É membro da Academia Rio-Grandense, arquiteto, empresário, escritor e titular do site www.puggina.org

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