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Américo estuda transporte

Na maioria das cidades, caos do transporte público: até quando?

Texto: Sebastião Luiz de Mello (Presidente do Conselho Federal de Administração)

A população brasileira, inconformada com a situação, foi para as ruas. Manifestações de norte a sul. A pressão popular conseguiu barrar o aumento da tarifa em algumas capitais, fez a Câmara dos Deputados derrubar, por 430 votos a nove, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que impedia o Ministério Público de promover investigações por conta própria – também conhecida como PEC 37 -, e fez a presidenta Dilma Rousseff propor a adoção de cinco pactos nacionais: por responsabilidade fiscal, reforma política, saúde, educação e transporte.

Este último precisa, urgentemente, de grandes melhorias. Nas minhas viagens pelo Brasil, conheço sistema de transporte público local e ouço as queixas da população. Hoje, na maioria das grandes cidades brasileiras, um número cada vez maior de pessoas perde tempo em seus deslocamentos diários. Os trajetos se tornam um martírio. De acordo com a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), no Brasil, o ritmo de crescimento do número de carros em circulação supera o da população na maioria das 15 metrópoles brasileiras, onde a população cresceu por volta de 10,7% e o número de automóveis aumentou em 66%, entre 2001 e 2010, resultado de um aumento em torno de 920 mil carros a cada ano. ANTP calcula que nas grandes cidades tem-se hoje, em média, 3,3 habitantes para cada veículo de passeio, o que corresponde aproximadamente a um veículo para cada domicílio. A ANTP esclarece ainda que a periferia das grandes metrópoles tem crescido mais do que suas áreas centrais, tendência que aponta para a constituição de um espaço urbano cada vez mais espraiado, implicando em crescentes custos e problemas logísticos para a provisão de serviços públicos de infraestrutura, essenciais à vida em cidade, e observa que, com isso, perde-se também as principais vantagens de uma cidade compacta, entre elas a baixa necessidade de viagens de carro, que, por sua vez, reduz o consumo de combustível e, consequentemente, a emissão de gases poluentes.

Ninguém mais discute que o sistema de transporte público está muito defasado.

Horizonte

Dentro de todo este caos existem bons exemplos de Administração do trânsito no Brasil. Curitiba (PR) é uma prova de que pode haver trânsito seguro e eficiente, desde que bem administrado. O sistema é simples, aliando uma administração profissional, adequada engenharia de tráfego, fiscalização eficiente e educação do cidadão para o trânsito. Claro que, como todo projeto voltado para a mobilidade urbana, esse teve seus limites e precisa ser revisto. Isso já está sendo feito.

Linhas de ação

Para melhorar o transporte público precisamos discuti-lo sob uma perspectiva mais ampla e em perfeita sintonia com o planejamento urbano. A ocasião é propícia para debater o tema, pois grandes volumes de investimentos estão sendo alocados em mobilidade urbana, em função dos megaeventos programados para os próximos quatro anos.

De acordo com o Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade para Todos (MDT), cerca de R$12 bilhões foram destinados à infraestrutura de transportes, só para a Copa do Mundo. Além disso, a promulgação da Lei 12.587/2012, sobre a Política Nacional de Mobilidade Urbana, pode ajudar muito para a resolução de problemas relacionados ao transporte público. Considero esta lei importantíssima, mas é necessário haver transparência dos custos das tarifas, fiscalização permanente e constante do Governo e da sociedade na aplicação dos investimentos e, sobretudo, devem ser levados em conta os direitos dos usuários.

Soluções

Enquanto os grandes projetos para resolver ou, pelo menos, minimizar os problemas dos transportes públicos não saem do papel, algumas soluções de fácil implementação, como a utilização de um sistema adequado de logística de transporte, pode representar um grande diferencial.

Posso parecer redundante e simplista quando apresento as sugestões, a seguir, mesmo porque já não são nenhuma novidade, pois algumas cidades do Brasil e do mundo já as colocaram em prática, com resultados concretos para os usuários de transportes públicos:

1.Criação de um sistema informatizado para o usuário do transporte público, com horários, tempo médio de deslocamento, monitoramento dos horários e outras informações relevantes, disponibilizadas em estações e paradas dos meios de transporte; além do comprometimento dos concessionários de transportes públicos no cumprimento de horários.

2.Integração modal efetiva entre os diversos meios de transportes, inclusive com as bicicletas.

3. Abertura e/ou aumento das faixas preferenciais para ônibus nas principais vias da cidade.

4. Estímulo para aquisição antecipada de bilhetes.

5. Exigência nas licitações públicas, para concessão de linhas de ônibus, de veículos que permitam um sistema de transporte coletivo integrado, eficiente, de qualidade e barato.

6. Criação de incentivos para que a população possa otimizar os espaços ociosos em seus veículos (incentivo à carona solidária).

7. Estímulos para a criação de soluções inteligentes e práticas para melhorar o trânsito nas cidades.

8. E, por último, contratar profissionais competentes para cargos de gestores em logística de transportes públicos, preferencialmente Administradores, com especialização na área.

Se as autoridades municipais passarem a estudar com dedicação os processos logísticos de transporte público, soluções virão para melhorar a qualidade dos serviços, reduzir os custos de deslocamento e otimizar o tempo para os cidadãos usuários. (Ana Graciele. e-mail: imprensa@cfa.org.br)

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