Colaboração: Cintia Alves
A criança observava pela janela os pingos de chuva que escorriam lentamente pelo vidro. Lá fora, o céu estava cinzento, e ela desejava que a chuva parasse.
Queria brincar de bola, pega-pega, esconde-esconde ou amarelinha. Queria correr pela rua, sentir o vento no rosto e voltar para casa somente quando alguém a chamasse.
Mas percebeu que não seria possível.
Seu horário de descanso havia terminado. Precisava voltar ao trabalho, cumprir suas responsabilidades, alcançar suas metas e ser uma boa funcionária.
A chuva continuava caindo, e a criança que vivia dentro dela desejava gritar.
O engraçado é que, quando pequena, ansiava pela vida adulta. Imaginava que crescer significava liberdade, mas ninguém havia lhe contado sobre os prazos, as cobranças, as contas e as responsabilidades.
Os sábados também mudaram.
Antes, eram manhãs de achocolatado, desenhos animados e cobertores espalhados pelo sofá. Agora, sábado virou dia de faxina, de rever as contas e resolver tudo aquilo que a semana não permitiu.
Até o descanso parecia precisar de um horário marcado.
Talvez essa seja uma das maiores ironias da vida: passamos a infância desejando crescer e boa parte da vida adulta sentindo saudade de quem éramos.
A casa de vidro nos permite enxergar tudo aquilo que deixamos do lado de fora: os sonhos esquecidos, as brincadeiras e a liberdade de simplesmente existir sem precisar produzir alguma coisa.
Mas será que crescer significa abandonar a criança que fomos?
Talvez ela nunca tenha ido embora. Talvez continue escondida dentro de nós, esperando uma oportunidade para brincar, rir sem motivo ou assistir novamente àquele desenho favorito. Porque amadurecer não deveria significar esquecer como se brinca.
E talvez, em algum dia de chuva, encontremos coragem para abrir a porta da nossa casa de vidro.
Não para voltar a ser criança, mas para permitir que ela continue vivendo dentro de nós.