Violência contra a mulher: o que é isto?

Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca (*)

Maria apanha do marido, Raquel foi estuprada, Luiza é culpada dos problemas dos filhos, Eliana teve que transar com o chefe para conseguir o emprego, Janaína não sabia que o namorado tinha Aids e foi contaminada. Se você é mulher e não se enquadra em nenhuma destas situações, mesmo assim sabe de que trata o livro lançado recentemente pela Editora Brasiliense, integrante da Coleção “Primeiros Passos.

Intitulado “O que é violência contra a Mulher” e de autoria de duas feministas engajadas na luta pelos nossos direitos, Maria Amélia de Almeida Teles e Mônica de Melo, aborda vários aspectos do fenômeno que, além de universal (porque ocorre em todos os lugares e épocas) é histórica e socialmente determinado pela condição de subalternidade das mulheres. Em outras palavras, há sempre uma mulher abaixo do último dos homens, passível de ser alvo de sua violência, como bem o dizia Olympe de Gouges, revolucionária francesa, morta pelos companheiros de luta por defender os direitos das mulheres: “Mulher, desperta-te; a força da razão se faz escutar em todo o universo; reconhece teus direitos. (…) O homem escravo multiplicou suas forças e teve necessidade de recorrer às tuas para romper seus ferros. Tornando-se livre, tornou-se injusto em relação à sua companheira”.

Assim as autoras apresentam o livro, seu conteúdo e finalidade: “O drama da violência contra a mulher faz parte do cotidiano das cidades, do país e do mundo. É um fenômeno antigo, silenciado ao longo da história. Tratado como natural, inerente à condição humana, tem sido bastante banalizado e considerado algo menor, sem importância. (…) É uma questão social e impõe-se a participação de todos para sua prevenção. Neste trabalho, introduzimos o tema de maneira prática e objetiva para que o público se descubra como agente fundamental no processo de eliminação da violência contra a mulher, conhecida como violência de gênero”.

Trata-se de uma verdadeira provocação para a ação, a partir da tomada de consciência sobre a gravidade do problema, que é materializado de diferentes formas. Fazem parte do trágico rol desde as lesões corporais, ameaças e assassinatos, até situações de violência simbólica ou psicológica, muitas vezes, nem sequer identificadas como tal e que muito ameaçam os direitos humanos das mulheres, porque naturalizadas (não parece, mas é…). Conforme afirma Clarice Lispector num dos seus mais belos poemas sobre as inúmeras coisas que incomodam o nosso cotidiano como o trânsito, a falta de tempo, o almoço em pé, o banheiro sujo e outras: é ruim, mas a gente se acostuma…

Uma questão de saúde pública – Parece mentira, mas as conseqüências da violência contra a mulher constituem um conjunto de problemas que alimentam as estatísticas de saúde. Além de agravos diretamente ligados às situações violentas em si como as lesões decorrentes de agressões, espancamentos, estupros, as mulheres submetidas a tais situações são mais suscetíveis a doenças pélvicas, gestação indesejada, aborto, depressão, alterações afetivas e emocionais. Por tudo isso, os serviços de saúde podem constituir importantes espaços de intervenção, reconhecendo e identificando o problema, além de agir sobre seus determinantes diretos e não apenas nas suas fímbrias como é o usual. Também relevante é o preparo do pessoal que lida com as mulheres para que não se omita ou intimide diante de situações tidas como de foro íntimo, mas que devem ser lidadas pública e politicamente, como a violência doméstica e sexual.

Enfim, o livro nasce sob a sina dos produtos pequenos e simples na aparência, porém verdadeiras jóias na essência, principalmente porque, além de informar de maneira efetiva e direta, é um verdadeiro alfinete de ouro cutucando a consciência. Impossível não se deixar tocar por ele. Vamos à luta ???

(*) Professora Titular – Escola de Enfermagem da USP e Coordenadora da Coseas. E-mail: rmgsfon@usp.br

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