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Vera Botta (*)

A trilha da Cidade de Deus também traz esperança

A violência escancarada. A brutalização tendo ao fundo o som de um samba-funk de uma favela que está aqui, em nosso país, em nossa cidade, talvez ao lado de nossa casa, em nossa rua. A história real, diferente dos tempos em que filmes norte-americanos nos contavam estórias, mescladas de ficção, de gangsters cheios de glamour. Hoje, o enredo e a vida se confundem. A violência e o tráfico de drogas não existem apenas no imaginário.

Rebeliões, traficantes, seqüestros, balas perdidas compõem o quadro cotidiano do noticiário nacional. Os protagonistas não são bandidos engravatados, com quem, muitas vezes nos identificávamos, sem que nunca os houvéssemos visto. São nossas crianças, nossos jovens que sem conhecer sonhos e outras perspectivas estruturadas de vida, são levados a trilhar o caminho do crime, atirando e sendo atirados.

Não se trata de uma escolha, nem de um violência parte da natureza humana. O adolescente perplexo, aterrorizado, entre a gang e a polícia, entre a contravenção e a lei, sem saber e poder distinguir bem as fronteiras destes dois mundos acaba, muitas vezes, sendo engolido pelo abismo cruel.

Ou pode encontrar esperança de conhecer outras alternativas, como Buscapé, personagem central do excelente filme de Fernando Meireles, “Cidade de Deus” encontrou, retratando fotograficamente e narrando facetas de sua própria história. Da mesma forma, a associação Os Meninos do Morumbi, projeto desenvolvido com mais de 1300 crianças e adolescentes da cidade de São Paulo, os quais, dando voz à fome, ao abandono, às desigualdades sociais, à vontade de inclusão social e ao seu grito de indignação e de esperança vêm cantando e encantando o país e o mundo. Em um pacto solidário e clamor coletivo pela cidadania. Raios de Sol como estes não dão o único tom à voz dos jovens. Lamentavelmente.

Beira-Mar dita regras da rebelião

Assiste-se ao filme Cidade de Deus em uma noite. No dia seguinte, os jornais parecem, sincronizadamente, dar continuidade ao enredo. Fernandinho Beira-Mar e outros criminosos do Comando Vermelho presos em Bangú 1, no Rio de Janeiro tomaram o presídio de segurança máxima, assassinaram ao menos 5 traficantes de facções rivais e fizeram 8 reféns.

Mais um episódio da guerra do tráfico. Renascem dimensões mostradas cruamente no Cidade de Deus. De um Brasil cínico e brutalizado. Nas reivindicações dos rebelados, aparece o medo de serem mortos ao fim do movimento. A vontade de sobreviver. A muralha insondável do medo. Temor que se alastra além dos muros do presídio, paralisando a cidade.

Qual é o diagnóstico?

Falência do sistema prisional? Promiscuidade nas administrações dos presídios, o que garantiria, em tese, regalias aos líderes, dando margem à corrupção? Falta de qualificação do pessoal no convívio com os presos? Falta de investimento em processos ressocializadores? Inexistência de uma política de segurança que privilegie ações preventivas e educativas? O mundo da droga se apresenta com métodos cada vez mais sofisticados de montagem. Uma verdadeira indústria com produção em série, tocada por mãos de pessoas que vivem aprisionadas, sob o signo do medo.

No enfrentamento destas muralhas, deve-se romper o silêncio das instituições e constituir mecanismos de ação afirmativa. Só poderemos, de fato, não estar semeando outras Cidade de Deus aqui e acolá se for redefinida a concepção de segurança pública, se houver investimentos na qualificação técnica e profissional de nossos policiais, se for revisto o Código Penal e o sistema prisional. Abrindo-se alas à prevenção, à ressocialização. A espaços culturais e profissionais que absorvam crianças e jovens em situação de risco pessoal e social. Só assim poderemos entoar cantos de convite à vida. De esperança. De renovação. Dando outras luzes à trilha violenta das drogas.

A ronda da Câmara

– Menos violenta, a semana trouxe audiência pública com a CTA. Convocada pelo vereador Turquinho. Com direito à resposta serena e competente de Rubens Miranda.

– O projeto de remissão de impostos chegou à Câmara. Com previsão de renúncia de receita. Com restrições. A condição é ter uma única propriedade e ser morador, com comprovada impossibilidade financeira de pagar tributos. A Coluna destaca: a lei é de Remissão, não anistia devedores de tributos que vêm há anos pesando em nossa dívida ativa. Sem nenhum sintoma de carência…

– A lei das antenas deixou a população antenada. Na busca de uma melhor qualidade de vida…

– O Dia Nacional de Combate ao Racismo, comemorado no último dia 9, teve direito a uma carta “Por um Brasil sem racismo” lida por Lula em Salvador. É preciso sensibilidade e vontade política para reverter o quadro extremamente desfavorável em que se encontra a população negra brasileira e outras minorias marginalizadas.

Estamos na Primavera, há cheiro de esperança no ar. Toda nossa solidariedade à dor das famílias enlutadas, Cattani, Caiano, Raposeiro. Os cumprimentos ao professor Borba que lançou no dia 12 uma obra inovadora de peso, Dicionário de usos do Português do Brasil. Boa semana a todos! Até a próxima!

(*) É coordenadora do Mestrado da Uniara e colaboradora do “JA”.

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