Vera Botta (*)
Uma noite ao pé de fogo
Passado o Arraial da Solidariedade, momento de doação e de altruísmo, minhas lembranças me levam a uma Noite ao pé do fogo, coisa de gente que viveu em Araraquara há 50 anos atrás. Inesquecível para mim, talvez para outros que viveram bem de perto o quanto de amor tinha por trás dessa festa junina simples, mas alegre, sem fogos e fagulhas, mas plena de energia positiva. Penso nas inúmeras reuniões de planejamento e de contabilidade que se passaram em minha casa, na avenida José Bonifácio, entre as ruas 1 e 2, bem no miolinho de nosso comércio. Tratava-se de uma festa junina, cujo produto era destinado às entidades assistenciais da cidade. Como se vê, o Arraial da Solidariedade vem sendo semeado há mais de meio século.
Quem cuidava da Noite ao pé do fogo???
Um grupo de amigos que fazia da amizade e da solidariedade ao próximo a mola de suas vidas. Era basicamente o grupo do Aperitivo Rotativo o responsável por esta tão esperada festa junina. Cidadãos que faziam do lazer compartilhado – um aperitivo que acontecia semanalmente na casa de cada um da turma – um momento de pensar no outro, a situações das pessoas e das instituições carentes. Pensamento entremeado de gestos e de atos fraternos. De brincadeiras sadias.
De quem falo???
Do meu pai, Alfredo Botta, confesso com orgulho e emoção que o Aperitivo Rotativo e as Noites ao pé do fogo marcaram fortemente minha infância, como de muitos outros de minha geração. E um a um, me vem à memória. Seu Dindim, nosso saudoso Reinaldo Garita que fazia qualquer relógio voltar às boas badaladas, Bizelli, que com sua alma de artista, espalhava seu amor pela cidade, herança bem recebida por seu filho, José Luiz Bizelli, professor da Unesp e cidadão atuante em questões de planejamento urbano. Ao trio se juntavam Pilade Biazioli, que gerenciava concessionária de combustível em um tempo em que nem se cogitava em adulteração, seu Lopes, o comandante inesquecível da Casa Brasil que veio de Portugal para instalar-se com sua família nesta nossa Morada abençoada.
Lembranças são como diamantes a se lapidar
Como me lembro do seu Ferrari, mentor da gráfica Ferrari no tempo em que a impressão aparecia magicamente com o dom de transformar palavras e mentes, do seu Ladeira, companheiro inseparável do papai no joguinho de baralho, pai do nosso querido médico José Luis Ladeira e do Juvenal, meu companheiro de Unesp. Tínhamos também o dr. Mazzi que sempre tinha uma palavras amiga a seus clientes e deixou sementes de sua dedicação ao próximo, na carreira de seu filho, dr. Sidney que ao lado de Sérgio e de dona Dirce são exemplos de uma afinado quarteto. E a simpatia do seu Sebastião, nosso vizinho que sempre teve no seu quarteto de mulheres, dona Nair, Eda, Euza e Dinda, a inspiração para uma vida de semeador da paz e harmonia. Seu Arnaldo, casado com Mariazinha veio de Campinas para esparramar sua alegria contagiante. Dr. Walter Zaníolo, nosso saudoso advogado que também deixou tão férteis raízes, parecia sisudo, mas era dos que faziam arte sem se manifestar… Companheiros que, com certeza, no céu, devem estar preparando muitas noites ao pé do fogo, bem pertinho das estrelas… Do grupo, temos vivo entre nós, o caçula, Nelson Gullo, o craque imbatível na cirurgia de boca, que ao lado de sua companheira, nossa querida amiga Marise formam um “dueto” que faz bater forte nosso coração.
E quantas lições nos foram deixadas
Na hora da contabilidade, seu Arcângelo Nigro, que não era do Aperitivo Rotativo mas sempre se pautou por atitudes de doação ao próximo e papai davam as cartas e conferiam tudo. Tim Tim por Tim Tim e iam felizes da vida levar o saldo obtido ao Lar Juvenil Domingos Sávio. E havia no riso, nas brincadeiras improvisadas, um ar de camaradagem que hoje é tão raro… Lembro-me de uma montagem feita com uma foto de meu pai, na qual os “amigos” puseram uma bela mulata… A brasa ardeu lá em casa…outra vez, “embalaram” em uma caixa, nossa querida amiga Ivoninha amulatada para presentear o seu Lopes que, como português da gema, gostou de ganhar de aniversário uma bela mulata…Tudo acabava em boas e inesquecíveis gargalhadas. Nós, os pirralhos da primeira geração, Marcos Garita, Célia, Suely, Wilma, Zeca Ferrari e tantos outros tínhamos nos piqueniques e no flerte disfarçado, muita história para contar no dia seguinte no colégio…
Semana de Santo Casamenteiro
Por que falar desta estória, aparentemente esquecida neste dias lindos de junho, em plena semana de Santo Antonio, conhecido pelos seus milagres de juntar as pessoas, fazendo – as mais felizes… Porque este grupo sempre fez da felicidade alheia o motivo maior de suas ações. Marcou a trajetória de Araraquara em uma época em que títulos de cidadão benemérito e homenagens dos poderes eram tão raros!!! Com certeza, a história do Aperitivo Rotativo merece ser escrita e ser guardada como um dos capítulos mais ricos de nossa história. Já confessei este desejo ao nosso escritor querido Ignácio de Loyola que me olhou com cumplicidade. Oxalá!!! E as mulheres guerreiras, que ainda estão vivas??? D. Tina, d. Luiza, Nereide, Marise, d. Lourdes, d. Maria, observadas pelas que já se foram e hoje nos acompanham como estrelas-guias devem, como eu, estar entre risos e lágrimas, lembrando-se de como se era feliz e se fazia caridade, sem esperar o “rufar dos tambores” e as luzes dos espetáculos… Queridos, vocês estão em nossos corações e para nós, este tempo não está enterrado, mas permanece vivo como prova de um tempo bom. Um tempo em que fomos felizes e sabíamos disso, herança que levamos na vida e nas lidas como algo muito, precioso.
A Coluna fica por aqui. Anunciando alegremente boas novas: a parceria Oracle/Uniara traz inovações para a cidade. No campo do meio ambiente, parcerias com usineiros e empresários se estruturando em um grande pacto para ajudar Araraquara a lutar contra o fogo. Boa semana a todos e até próxima.
(*) É pesquisadora da Uniara e colaboradora do JA.