Um mês, uma semana e uma grande família

(*) Benê

O período que antecedia uma corrida de motocicleta era, para todos nós, tão emocionante como a própria. Um mês antes começávamos com todos os aprontos objetivando alcançar o melhor resultado possível para a melhora de velocidade. Disso resultavam os experimentos ligados ao motor, aerodinâmica e eletricidade buscando, através de tecnologias novas e que iam sendo conhecidas , ora por revistas especializadas, outras por informações de amigos especialistas em outras áreas e, por fim, em simples especulação mesmo. Assim, nosso universo de colaboradores ia sempre voluntariamente aumentando. Como o seu Augusto Espeleta que cuidava do enrolamento de bobinas, melhorando a qualidade que, naturalmente, aumentava a confiabilidade e capacidade de melhora de “faisca”. Tagliacozzi, uma pessoa apaixonada por veículos de duas rodas, trouxe sua experiência de funileiro em calhas para os escapamentos construídos em forma de funil, buscando melhor compressão dos motores. Francisco Vayda, que construía carroceria de fibra de vidro para o carro Pulma, equipado com motor de DKV, emprestava seu talento para as carenagens. Tom, da Radio Cultura, levava com sua MONDIAL 250 cc azul seus conhecimentos de eletrônica, na época, tão distante da nossa competência. Todas essas pessoas, somadas, resultavam nas vitórias e sucesso de toda a galera. O laboratório eram as bancadas das oficinas do PENHA, do NEGO, do ZAGO e dos FAITOS, mas, os testes reais eram feitos na estrada velha que liga Araraquara/Américo Brasiliense, caminho do Clube da AABB do meu querido Joacyr Braghini. Lá, fazíamos defronte a oficina dos ALEMÃES nosso boxe e das suas instalações nossa referência. Não raras vezes acabávamos usando e abusando daquela generosidade. Os testes não eram rachas , eram testes de verdade. Assim, a mesma motocicleta era testada por todos os pilotos. PENHA, NEZINHO (EVALDO SALERNO), NETO, BAIANO (CELSO MARTINEZ), EDIVILMO, PINHO (JOSÉ MANOEL SAMPAIO), ZÉ FAITO, DIOGO e até eu, que nada sabia perto daquele monte de “cobras”, dava uma volta e trazia minhas impressões que iam sendo discutidas e tomando formato. Era muito legal porque bastava as motocicletas de corrida subirem a FONTE, com destino à pista, ainda que da forma mais discreta possível que, imediatamente, todo aquele pessoal “das jovens tardes de domingo” vinha chegando atrás rapidamente, quase que “dominados” pelo barulho encantador e o cheiro inesquecível das misturas de gasolina, valvoline racing, óleo de rícino, éter e acetona nas combinações do nosso químico Edson Colombo.

O direito de sonhar

Tinha de tudo, Jair Galeani e Juninho Roldão, OS PREOCUPADOS Marcos Placco e o Doquinha da Chalu acompanhados de um irmão Ciomino. Os TRABUZANAS nas pessoas do MARCHA-LENTA (Dr. Emilio Montoro) e Lori e ainda das gatíssimas Estela, Marli, Mirian (Joinha), Rosana, Zezé e tantas outras, ainda, tão lindas jovens-senhoras de quarenta anos que a memória não me permite, instantaneamente, lembrar.

Na semana da corrida mesmo, bastava o fim do expediente comercial que tudo se transformava, como num passe de mágica. Na OFICINA DO FAITO, que de menino conheci e foi a porta de entrada para os meus sonhos de piloto, os tratores davam lugar às motocicletas, os tarugos de ferro para as chapas de onde saiam aqueles escapamentos em forma de funil, os tornos para ajustes dos cilindros e cabeçotes e o esmeril para acabamentos diversos. A solda nem se fale, qualquer retalho de ferro transformava-se em peça nova e ganhava forma, acabamento e textura artesanal.

A gente ficava até altas horas da noite mexendo nas motocicletas, tudo na maior harmonia e cada irmão se solidarizando com o outro que nem parecia que, na hora da corrida, era cada um pra si e o que valia mesmo era a vitória.

Corrida séria

A disputa era limpa, mas, arrojada. E ninguém ia dar moleza prá ninguém. Corri várias vezes com eles, vi o Baiano e o Zé Faito fazer primeiro lugar, assisti o Diogo nos seus projetos futurísticos e o Sergio em tocadas espetaculares com uma Honda 65 que urrava como carro de fórmula. Mais ainda, fiz parte do grupo de irmãos que ia se revezando na hora da janta para comer macarronada com carne da LURDECA, acompanhada das gostosíssimas mimosas e cotubas.

Assim, esse doce ritual também se repetia na Oficina do Nego, do Penha e do Zago e íamos nos visitando uns aos outros todos os dias , tão prazerosamente que, ainda hoje, quando o dia vai terminando viajo nas minhas lembranças e volto a sentir aquele gostinho da felicidade de ter vivido uma adolescência toda especial.

(*) Atende pelo 232-1996

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