Torcida e Juros

Antonio Delfim Netto (*)

O debate sobre os juros, como tem acontecido com outras questões da economia entre nós, está totalmente fora de lugar. Tem torcida organizada a favor e contra a alta dos juros e até faixas de protesto como nos estádios de futebol (nenhuma a favor evidentemente), exibidas na esplanada dos ministérios em Brasília esta semana.

Para início de conversa, não pode haver dúvidas sobre os efeitos da atual política: juros elevados controlam a demanda global, reduzem o crescimento econômico e aumentam o desemprego. Em segundo lugar, a manipulação da taxa de juros é um instrumento eficiente para o controle da inflação, o único que o Banco Central dispõe para atingir o objetivo que se fixou.

O problema então, não é discutir se o juro está bom ou se está ruim e sim se é adequado o objetivo que o governo e o Banco Central fixaram para a inflação. É isso que está sendo totalmente elidido no debate. Na minha opinião, o erro cometido no início do governo foi estabelecer a meta de 8,5% de inflação até dezembro de 2003. É bem provável que este horizonte curto tenha sido sugerido pelo FMI, que não costuma incluir custos sociais em seus cálculos. De fato, trata-se de um objetivo extremamente ambicioso e de alcance no mínimo duvidoso. Foi para atingir essa meta que nos primeiros meses deste ano as taxas de juro foram mantidas naqueles altos níveis. Pode-se argumentar que a dose estava correta porque estamos assistindo a uma redução no crescimento das taxas da inflação. Na verdade, ajudada por uma política fiscal extremamente virtuosa e mais recentemente pela desvalorização do dólar americano, mas certamente temos um movimento monotônico de queda da inflação.

Ora, se acreditarmos que existe expectativa de inflação e que o mercado está trabalhando com uma taxa de inflação de 8,5% para o mês de maio de 2004, qual a diferença de esperar maio de 2004 para o cumprimento da meta, em lugar da fixação em dezembro de 2003? Porque a sociedade deve pagar um custo mais alto em termos de crescimento e emprego, apenas para que no mês de dezembro o Banco Central possa se proclamar campeão antecipadamente, o que é também duvidoso porque a taxa dificilmente estará naquele nível?

Afinal, o Brasil não vai acabar em dezembro e não é razoável que uma meta de inflação singularmente ambiciosa imponha um custo desnecessário à toda a sociedade, por mais tempo.

(*) E_mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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