Terezinha Bellote Chaman (*)
"Antes de procurar DEUS em imagens, olhe à sua volta e veja como ele sorri nas criaturas".
Bom dia a todos. José Oliboni escreveu Viúvos. Vale a pena ler com atenção.
“Quem vai contar para ele?” Marcelo perguntou, tentando se esgueirar do fardo.
“Você, é claro.” Marta respondeu como uma ordem.
“Por que eu?"
“Ora, ele é seu pai.”
“Mas ele a considera uma filha.”
“Eu estou muito abalada, não vou conseguir contar.”
Eles olharam para o chão e depois a sua volta. O hospital estava deserto. O velho relógio movia-se cansado, marcando quatro da manhã. Mas ninguém estava na sala de espera, além deles. Já não tinham mais por quem esperar Marcelo estava abatido, passara a noite no hospital, para que seu pai pudesse dormir algumas horas. Sua camisa amarrotada para fora da calça já viu dias melhores. Do seu bolso está pendente uma ponta de gravata que ele tirara assim que saíra do trabalho, às pressas. Marta não estava melhor. Olhos cansados, cabelo desfeito e a maquiagem muito borrada pelas lágrimas. Aquilo não podia acontecer, eles eram jovens demais. Tudo bem que já alcançavam seus trinta anos, mas ainda eram jovens demais para terem esses sofrimentos. Marcelo interrompeu o silêncio entre eles, numa tentativa frustrada de se livrar do cargo de portador de más notícias.
“Eu contei para ele quando minha mãe morreu, agora é sua vez."
“Eu não a conhecia naquela época. Além do que, isso só quer dizer que você sabe melhor do que eu o que fazer.”
“Quem contou a seu pai quando sua mãe morreu?”
“Ele estava lá, ele que me contou, eu apenas chorei com ele.”
“O que nós vamos fazer? Ele não sabe viver sozinho.”
“Eu sei, eu fiquei impressionado com a rapidez com que ele substituiu sua mãe.”
“Ele não a substituiu, ele só não queria viver o resto de sua vida sozinho.”
“Eu não entendo isso, eu viveria o resto da minha vida sozinha.”
“Pode até ser, mas ele é de outra época, não suportaria o abandono, além do que, eu achei uma boa solução.”
“É, foi diferente. Mas bom para ambos.”
Ele se levantou, já que não poderia escapar daquela missão, queria informar o pai antes de ele sair de casa. Ela decidiu ficar mais um pouco no hospital, para acertar os papéis e ir mais calma para casa.
A velha casa onde seu pai vivera os últimos 42 anos estava com as luzes acesas. Certamente ele estava acordado. Deve ter tentado fazer um café e resolvido que já era hora de voltar para o hospital. Quando o filho entra pela porta ele já sabe de tudo. Só precisam se olhar para que a mensagem seja transmitida. Marcelo chora pela primeira vez, desde de que soube e abraça seu pai. Roberval realmente estava pronto para sair, apesar de uma pequena mancha em sua camisa, estava vestido apropriadamente para ir ao hospital. Ele abraçou o filho e choraram juntos.
Quando se acalmaram, sentaram-se no sofá. Roberval queria alguns detalhes, ele tinha esse direito após os últimos anos de convivência.
“O que aconteceu?"
“O coração parou.”
“Eu disse para cortamos as carnes e gorduras dessa casa, mas nunca sou ouvido.”
“Foi a idade, o coração já estava fraco, não havia nada que pudéssemos fazer.”
“Nós sempre pensamos que seria a próstata.”
“É, mas o coração parou primeiro.”
“Eu preferia que o meu tivesse sido o primeiro.”
“Deixe de ser egoísta.”
“Eu sei, mas como viverei sozinho?”
“Dá-se um jeito. Eu moro perto e Marta vai querer te ajudar, ela se afeiçoou ao senhor.”
“Eu sei, ela é uma ótima garota, vocês deveriam ficar juntos, formam um ótimo casal.” Roberval disse olhando esperançoso para o filho.
“Você sabe que não daria certo."
“Porque você não quer. Ela gosta de você.”
“Pai, estávamos falando da sua vida sentimental e não da minha.”
“Tudo bem, eu sei como aquela menina Elisa o afetou, aliás, eu li o seu livro, muito bonito.
“Então pai, se você sabe, porque não me deixa em paz e vai colocar o seu terno preto?” Marcelo fala enquanto procura o terno, que fica guardado no closet da sala.
“Tinha me esquecido disso. Marta está cuidando do velório?” Roberval demonstra preocupação, mas está imóvel, talvez ainda não seja capaz de assimilar todos os fatos.
“Ela ia acertar isso e depois ia descansar.”
“Ela é realmente uma ótima menina.”
“Eu sei pai, nós sempre nos vemos.” Ele disse antes que tivesse de ouvir um sermão.
“Você não pode viver do passado. Você errou com Elisa, tudo bem, mas ela já está morta e enterrada. Ela não iria querer vê-lo assim."
“Pai, respeite minhas decisões e minha solidão, não é minha culpa eu não ser como você.”
“O que você quer dizer com isso?” O pai não levantou, mas demonstrou que estava contrariado.
“Você sabe o que eu quero dizer. Não é porque, quando a mamãe morreu, você trouxe a primeira pessoa que achou na rua para casa, que eu deva fazer o mesmo."
Roberval se levantou, não poderia ser afrontado por seus hábitos, em sua própria casa. Ele se dirigiu para o filho com o dedo em riste.
“Você sabe muito bem que não foi isso. Eu e Vítor somos amigos há anos. Quando sua mãe morreu, ele me apoiou muito. Como não fazia sentido vivermos sozinhos, convidei-o a mudar para casa.”
“Eu sei disso. Eu e a Marta achamos muito conveniente nossos pais viverem juntos. Facilitou nossas vidas e os nossos cuidados para com vocês, mas você tem de admitir que foi meio repentino.”
“Eu sei, mas nós nos damos … dávamos bem. Ele cuidava de mim e eu dele. A gente se ama.” Toda firmeza do velho se desmanchou. Ele começava a entender que estava sozinho, dali para frente seria só ele. Depois de anos juntos, dividindo as pequenas tarefas, ouvindo um do outro as mesmas velhas histórias, como ele poderia viver sem Vítor?
Marcelo ajudou o pai com o paletó. Sabia como aquela morte o afetava. Desde que Vítor mudou para aquela casa, ocupando seu antigo quarto, ele sabia como os dois se gostavam. Não que seu pai fosse gay nem nada. Eles só eram de uma época em que uma forte amizade entre dois homens, praticamente um amor entre, eles não representava uma maliciosa feminilidade. Muito pelo contrário, a fidelidade entre as amizades masculinas da época de seu pai era impressionante. Talvez poucos casais se entendessem tão bem como aqueles dois homens. O enterro foi triste como deveria ser. Marta chorava por seu pai. Roberval chorava por seu amigo. Marcelo chorava. Não sabia se para acompanhar a tristeza de todos. Afinal, nunca chegou a se tornar muito próximo de Vítor, mas aquela situação o entristecia. Ele sabia como era ruim perder alguém. Não conseguia entender como seu pai passara por aquilo duas vezes. O mais importante ele não entendi: como seu pai, mesmo perdendo tudo o que dava centro para sua vida, duas vezes, insistia com ele para que amasse novamente. Talvez aquela frase estivesse certa. “Amar e perder é melhor do que nunca ter amado”. Ele não estava certo disso, mas Marta lhe parecia diferente agora. Muito mais frágil, dependente, assim como ele.
Vamos ao nosso "Teste o seu Português" de hoje:
1 Qual das frases está adequada?
a – O Estados Unidos vão propor novo acordo de Paz.
b – O Estados Unidos vai propor novo acordo de Paz.
c – Os Estados Unidos vão propor novo acordo de Paz.
d – Os Estados Unidos vai propor novo acordo de Paz.
2 Existe uma ______________ de culturas,em nosso país.
a ( ) mixigenação;
b ( ) missigenação;
c ( ) miscigenação;
d ( ) micigenação;
e ( ) misigenação.
3 É muito _________ sua opinião sobre política.
a ( ) ortodoxa;
b ( ) ortodoquiça;
c ( ) ortodoça;
d ( ) ortodocsa.
4 O futebol é um grande ____________ para o povo.
a ( ) intreterimento;
b ( ) entretenimento;
c ( ) entreterimento;
d ( ) intretenimento.
5 É totalmente __________ escolher ou lavar aquele arroz.
a ( ) superflo;
b ( ) supérfulo;
c ( ) superflu;
d ( ) supérfluo.
6 Uma frase não leva hífen. Você sabe qual é?
a A corrida foi pau-a-pau, do início ao fim.
b Bom mesmo, em festa junina, é subir no pau-de-sebo.
c Pau-brasil é uma árvore tradicionalmente brasileira.
7 Em qual frase o hífen está correto?
a Foi uma queda-livre emocionante.
b Infelizmente foi um tiro à queima-roupa.
c Dizem que alguns jornais têm o rabo-preso com a política.
8 Era um _________saboroso de uvas brancas.
a ( ) rasemo;
b ( ) rasimo;
c ( ) racemo;
d ( ) racimo.
ATENÇÃO: existem duas respostas corretas.
9 DEUS é como uma ___________ em nossa vida.
a ( ) centelia;
b ( ) centelha;
c ( ) sentelia;
d ( ) sentelha.
10 No programa Mestre-Cuca, nada é feito sem a ________ do "Chef" Allan.
a ( ) anuênssia;
b ( ) anuênsia;
c ( ) anuênscia;
d ( ) anuência.
(*) Professora de Língua Portuguesa, com especialização em Lingüística de Texto. Mestre em Comunicação pela UNESP de Bauru – SP e Doutoranda em Comunicação e Semiótica pela PUC SP, Jornalista e produtora do quadro "Teste o seu Português", Programa "Chef" Allan, o Mestre-Cuca CNT Central Nacional de Televisão.
Respostas
Resp 1.: A frase adequada é:
c – Os Estados Unidos vão propor novo acordo de Paz.
OBS.: Referência com artigo definido, no plural (os). Concordância no plural.
Resp 2.: c – Existe uma miscigenação de culturas, em nosso país.
Miscigenação (= reprodução oriunda de indivíduos de etnias diferentes).
Resp 3.: a – É muito ortodoxa sua opinião sobre política.
Ortodoxa (= radical, inflexível).
Resp 4.: b – O futebol é um grande entretenimento para o povo.
Entretenimento (= diversão, distração).
Resp 5.: d – É totalmente supérfluo escolher ou lavar aquele arroz.
Supérfluo (= inútil, desnecessário).
Resp 6.: A frase que não leva hífen é:
a – A corrida foi pau a pau, do início ao fim.
Obs.: Pau a pau = em pé de igualdade.
Resp 7.: A frase que leva hífen é:
b – Infelizmente foi um tiro à queima-roupa.
Obs.: À queima-roupa = de repente, de chofre.
Resp 8.: c d – Era um racemo ou racimo saboroso de uvas brancas.
Racemo ou racimo (= pequeno cacho) Cf. Borba 2004, à p. 1163.
Resp 9.: b – DEUS é como uma centelha em nossa vida.
Centelha (= faísca, lampejo).
Resp 10.: d – No programa Mestre-Cuca, nada é feito sem a anuência do "Chef" Allan.
Anuência (= consentimento, concordância, aprovação).
OBS.: Colunista semanal dos jornais Diário do Grande ABC (SP) e Jornal de Araraquara (SP), Jornal Independente Dois Córregos (SP), Tribuna do Norte Natal (RN), Jornal de Nova Odessa (SP), Diário da Franca Franca (SP) e Diário de Sorocaba Sorocaba (SP) Jornal de Itatiba Itatiba (SP) O Liberal Regional Araçatuba (SP) Diário da Serra Tangara da Serra (MT).