Teste o seu Português (740)

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Prof.ª Dr.ª Terezinha de Jesus Bellote Chaman (*)

Terceira idade marca presença no Jornalismo Literário. (continuação).

Contaminada pela vida

Sabe-se que o nível de pertinência do texto – enunciado, por si só, não é capaz de fundir em um só elemento toda a gama de significados que permitem depreender o enunciado.

Vejamos o que nos diz Portela:

A problemática da depreensão do enunciado na mídia impressa cotidiana, por exemplo, passa por algumas questões fundamentais que nos fazem pensar sobre a natureza e os limites do nível de pertinência do texto: (1) a notícia ou o artigo são enunciados resultantes de uma demanda contínua e orientada, determinada pela organização das pautas de jornal; (2) esses enunciados têm um contexto de ocorrência preestabelecido (a página, o caderno, a publicação como um todo, o grupo de comunicação no comando); (3) eles tratam de narrativas e valores cuja elaboração quase sempre está inacabada […] (2008, p. 101).

O percurso da expressão, portanto, é que introduzindo e articulando outros níveis de pertinência organiza tal heterogeneidade, dita multimodal.

O percurso gerativo da expressão proposto por Fontanille, partindo do signo, do texto enunciado, chega às formas de vida e portanto à cultura.

Segundo Schwartzmann: […] a forma de vida é uma experiência semiótica que dá lugar a uma espécie de sentimento de identidade e de comportamento, graças à regularidade de um conjunto de processos, de procedimentos de acomodação estratégica, sendo, enfim, a própria experiência de um ethos. Essa experiência, tendo sido convertida em um dispositivo de expressão, um estilo que exprime uma atitude pode, certamente, integrar-se à totalidade dos níveis inferiores, para produzir globalmente uma configuração pertinente para a análise das culturas. A forma de vida é assim, também um caso de isotopia, de recorrência intensa de diversas propriedades significantes […] (2009. p. 97).

Beatriz, três histórias em uma só história. Três vidas em uma só vida:

1ª. – Aos 19 anos um programa narrativo a cumprir, como moça casadoira da década de 50: o casamento com um homem escolhido pelo pai. Aí temos, como pontua Landowski (1995), no fragmento abaixo, a estesia e a anestesia, como dois gumes de uma mesma faca:

[…] mal chegado o instante de deslumbramento, começa a inelutável volta ao ponto de partida, a recaída no mundo banalizado e automatizado de todos os dias […] cuja sucessão em forma de ida e volta nada mais faz, na realidade, do que traduzir no plano sintagmático uma articulação paradigmática estritamente binária: de um lado, a experiência estética apresentada como um ‘relâmpago passageiro’ e de outro, o ramerrame do cotidiano, reino de anestesia, do qual o sujeito emerge somente um instante para, logo a seguir, novamente mergulhar nele.

Beatriz cumpre seu programa narrativo, notadamente em prol dos filhos. Isto fica bem claro pelo “operador argumentativo por excelência”: Mas logo vieram os filhos, com suas alegrias, a diluir aquela vida ‘insípida, inodora e incolor’.

Entretanto, a união eterna, até que a morte os separe, homologada pela instituição legal do casamento, é abalada por um evento perturbador: a traição, ou seja, a “ruptura do contrato fiduciário” pelo marido. Movida pela paixão do momento, não se sujeita às formulas ditadas por um regime de interação regido pela regularidade, denominado por Landowski “programação”. Instaura-se, então, o princípio de um novo programa narrativo, uma nova ordem não passiva de busca para um novo sentido da vida. Diria Landowski:

Como se, através dessa dupla síncope que afeta tanto o parecer dos objetos quanto o modo de sentir do sujeito, esse último encontrasse seu duplo – outro e mesmo – concretamente atualizado na sua frente (1995, p. 245).

2ª. – Sozinha, sem pensão alimentícia aos três filhos, apenas com os bens em nome deles e, acrescente-se, ainda com fortes resquícios de sua forma de vida anterior, tão enraizada de não – sujeito, resolve mudar seu objeto – valor: a moça casadoira dos 19 anos, aos 40 aceita a proteção financeira (segurança) de um segundo marido. Um autêntico contrato fiduciário se assim posso denominar, numa relação de troca gentil e interessada (promessa e sacrifício?). Como só se é capturado no afeto, cumpriu-se o programa narrativo em que Beatriz confiou, num percurso completamente diferente do anterior, como um sujeito pragmático e cognitivo, lutando pela sobrevivência. Uma nova forma de vida, advinda da era da tecnologia, da emergência do material e dos desafios da busca de um novo sentido à vida, após a tentativa de tirar a própria vida?

3ª. – Aos 48 anos, ao longo de seu percurso, como sujeito do saber – fazer, dominada pelo desejo de não mais ter ninguém em sua vida, eis que de repente, não mais que de repente… o inesperado. Um programa narrativo não a cumprir, por imposição de uma ordem social, mas um programa narrativo que percorrerá estados de euforia, de conjunção, de uma forte disjunção ao se revelar a doença em Beatriz e de novo desembocando numa conjunção perene de afetos, de lutas, de busca do sentido do “sentido da vida”.

Tais programas narrativos, tão diversos entre si, constroem isotopias que conectam, como um tênue fio, uma identidade de comportamento do anti – sujeito Beatriz e dos sujeitos seguintes e uma regularidade de procedimentos que nos leva a identificar um ethos. Este, transformando em um dispositivo, exprime uma atitude, configurando-se um estilo.
Chegou um tempo em que não adianta morrer. Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação. Drummond (1980, p. 128).

Continua nas próximas edições…

Teste seu Português:

01 – Não mexa com a mulher do Zé Grandão! É uma grande ___________.
a ( ) incençates;
b ( ) incensatez;
c ( ) insensates;
d ( ) insensatez.

02 – Aquele apresentador de TV tem o hábito de ___________ e-mails ____________ ao programa.
a ( ) manuzear – diressionados;
b ( ) manusear – direcionados;
c ( ) manuziar – direscionados.

03 – Programas de culinária estão alcançando ____________ junto ao público masculino.
a ( ) progessão;
b ( ) projessão;
c ( ) projeção;
d ( ) progeção.

04 – Foi bastante _____________ a manobra daquele piloto.
a ( ) ezequível;
b ( ) exequível;
c ( ) esequível;
d ( ) execuível.

05 – O Brasil encontra-se, economicamente, em franca ____________?
a ( ) ascenssão;
b ( ) asenção;
c ( ) ascenção;
d ( ) acenção;
e ( ) ascensão.

06 – Nada de tantas ______________! Mãos à obra, moçada!
a ( ) elucobrações;
b ( ) elocubrações;
c ( ) elucubrações;
d ( ) lucubrações.

07 – Marlene ___________ ao ouvido da Geana: este __________ está com um preço ótimo!
a ( ) suçurrou – sutiam;
b ( ) susurrou – soutian;
c ( ) sussurrou – sutiã.

(*) É Pesquisadora do GEPEFA – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Famílias – UNESP/Franca.

RESPOSTAS

Resp 1.: d – Não mexa com a mulher do Zé Grandão! É uma grande insensatez.
Insensatez (= imprudência).
Resp 2.: b – Aquele apresentador de TV tem o hábito de manusear e-mails direcionados ao programa.
Manusear (= folhear, pegar).
Direcionados (= encaminhados, dirigidos).
Resp 3.: c – Programas de culinária estão alcançando projeção junto ao público masculino.
Projeção (= importância, destaque).
Resp 4.: b – Foi bastante exequível a manobra daquele piloto.
Exequível (= executável, que pode ser feito).
Resp 5.: e – O Brasil encontra-se, economicamente, em franca ascensão?
Ascensão (= desenvolvimento, progresso).
Resp 6.: c / d – Nada de tantas elucubrações ou lucubrações! Mãos à obra, moçada!
Elucubrações (= cogitações, elaborações mentais).
OBS.: Lucubrações é forma variante, menos usual.
Resp 7.: c – Marlene sussurrou ao ouvido da Geana: este sutiã está com um preço ótimo!
Sussurrou (= murmurou, falou em voz baixa).
Sutiã (= peça do vestuário feminino).
Obs.: Sutiã forma portuguesa correspondente ao francês soutien.

OBS.: Colunista semanal dos jornais Diário do Grande ABC (SP) e Jornal de Araraquara (SP), Jornal Independente – Dois Córregos (SP), Tribuna do Norte – Natal (RN), Jornal de Nova Odessa (SP), Diário da Franca – Franca (SP) e Diário de Sorocaba – Sorocaba (SP) – Jornal de Itatiba – Itatiba (SP) – O Liberal Regional – Araçatuba (SP) – Diário da Serra – Tangara da Serra (MT).

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