João Baptista Galhardo
Nos anos quarenta do século passado, durante a guerra e depois dela, havia racionamento dos gêneros de primeira necessidade. Principalmente para os pobres. Para conseguir um litro de óleo de cozinha havia necessidade de enfrentar uma fila formada a partir da madrugada para obter na Prefeitura uma senha por família. Depois uma longa espera num depósito do Município situado na avenida Sete de Setembro com a Padre Duarte. Aí um servidor municipal gerenciando um tambor de duzentos litros, enchia o vasilhame levado pelo próprio consumidor. Nessa época não podia dizer que os pobres comiam o pão que o diabo amassou, porque nem esse existia. De vez em quando comprava-se numa padaria uma broa de fubá e farinha. Na fila do óleo não havia gente rica. Numa tarde ao sair do Grupo Escolar da rua Carlos Gomes, com a Avenida São Paulo, notei uma aglomeração de pessoas. Havia um incêndio no depósito de um grande armazém, que ali guardava milhares de latas de vinte litros de óleo. Por certo compradas e para serem vendidas no câmbio negro. Com aquela abundância de óleo ardendo, percebi que racionamento existia mesmo só para pessoas carentes. Os que tinham dinheiro sabiam onde comprar. O fogo aumentava. As latas explodiam. O povo aplaudia. Mais pelo efeito pirotécnico do que por maldade. Com toda dificuldade notava-se que o pobre não se indignava. Deveria. Levava sua vida com honestidade e trabalho. Meus pais não se cansavam de dizer “não mexa no que é dos outros. Seja honesto…. Faça tudo como se alguém estiver olhando”. Recentemente num jornal recheado de maus exemplos de ladroeiras, corrupções, mentiras e estelionatos, etc., aparece a notícia de que um cidadão achou uma maleta. Levou-a para casa. Ao abri-la encontrou valores equivalentes a duzentos mil reais. Por um cartão localizou quem perdeu. Foi devolvê-la, recebendo de gorjeta cento e dez reais. O dono pediu para não revelar o seu nome. Por certo não tinha sequer feito boletim de ocorrência!!! Em regra o brasileiro é assim mesmo. Honesto. Eu também devolveria. Mesmo sem ninguém ter percebido. Aquele cidadão levou em conta que ele teria uma testemunha pesada a depor contra ele vinte e quatro horas por dia: a sua própria consciência. Não importa a quantidade de corruptos e corruptores. Ladrões e corruptos nascem feitos. A oportunidade é que faz o roubo e a corrupção. Como diria a Madre Tereza de Calcutá, não se nivele aos maus. Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo. Seja honesto e franco assim mesmo. Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro. Seja gentil assim mesmo. Se você é vencedor, terá alguns falsos amigos e alguns inimigos verdadeiros. Procure vencer assim mesmo. Se você levou anos para construir, alguém pode destruir de uma hora para outra. Construa assim mesmo. O bem que se faz hoje pode ser esquecido amanhã. Faça o bem assim mesmo. Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante. Dê o melhor de você assim mesmo. O paraíso está na consciência de cada um. Plagiando Charles Chaplin, o caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza. Haverá sempre extravio. A cobiça envenena a alma dos homens. Levanta muralhas de ódio. Tem feito marchar a passo de ganso para a miséria e morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, também nos deixa na penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos. Nossa inteligência, – empedernidos, insensíveis e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade, benevolência, sentimento de bondade e de compaixão. Mais do que inteligência e aprimoramentos técnicos, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência, hipocrisia e tudo será perdido.