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Sensibilidade como estratégia na construção de marcas

Victor Fortunato (*)

É verdade que algumas marcas que ganharam evidência nacional e até internacional ao longo do tempo surgiram como um sopro de ideia, uma inspiração. Mas, a verdade é que grande parte dos empreendimentos é batizada após muitos rascunhos. Um dos ingredientes mais importantes nessa estratégia de construção de marca deve ser a sensibilidade. O branding afetuoso e centrado na história humana é capaz de gerar valor e ser reconhecido pelo mercado.

Não se trata de ingrediente trivial. Em um mercado frequentemente dominado por fórmulas genéricas e tendências efêmeras de design, a verdadeira diferenciação de uma marca raramente surge da estética pela estética. Ela nasce do resgate da história, dos afetos e da visão de quem a criou.

Um exemplo desse cruzamento de estratégia e sensibilidade foi reconhecido recentemente no Troféu Cristãos Criativos 2026, de São Paulo, premiação concebida por uma comunidade interdenominacional fundada por Mike Anselmo com os pilares de conectar, pertencer e cocriar. Em sua segunda edição, o Troféu Cristãos Criativos valoriza a excelência técnica combinada com princípios de cuidado, serviço e respeito.

A vencedora da categoria Projeto de Branding Não Religioso nessa premiação foi o Café da Ana, um projeto que teve origem no interior de Minas Gerais, na cidade de Araguari, jogando luz à premissa da sensibilidade como o principal vetor de inteligência estratégica.

A história do Café da Ana começou com um desafio aparentemente simples. Ana Godoi, decoradora e produtora de eventos com 13 anos de trajetória em Araguari, desejava abrir uma cafeteria no mesmo espaço onde recebia suas celebrações. O pedido inicial sugeria a criação de uma marca convencional de cafeteria. Contudo, olhar para o negócio com sensibilidade revelou uma camada muito mais profunda.

Nem todas as pessoas contratam uma festa ou uma grande celebração frequentemente. Porém, qualquer pessoa pode entrar em uma cafeteria, pedir um espresso e experimentar a mesma curadoria e o mesmo senso de cuidado de um evento exclusivo. O café, portanto, não nasceu para ser apenas mais um empreendimento paralelo, mas sim a porta de entrada para o universo de Ana Godoi — um showroom vivo funcionando em perfeita harmonia estratégica.

Para que a novidade funcionasse sem ofuscar a marca-mãe, aplicou-se uma arquitetura de marca análoga à relação de grandes casas de moda globais com suas linhas acessíveis: manteve-se o mesmo DNA, abrindo um novo ponto de acesso ao público.

O território conceitual da “Alma Celebrada” que habitava a marca-mãe de Ana Godoi serviu de ponte para conectar o território conceitual do novo espaço: “Alma Acolhida”. A sofisticação nostálgica das grandes comemorações se transmutou em uma nostalgia cotidiana. E a partir dessa premissa sensível, cada elemento do ecossistema visual ganhou significado, de forma que a estrutura do local permitisse que o espaço passasse a operar em três ritmos sob o mesmo teto: a rotina de cafeteria diária, os encontros para eventos intimistas e as noites temáticas com chefs convidados.

O reconhecimento reafirma que o branding de alcance e padrão nacional não depende do CEP onde é produzido. Ele depende de escuta atenta, respeito à trajetória do fundador e capacidade de tradução. Marca memorável não nasce pronta. Ela é descoberta. Está lá, na história de quem construiu o negócio; o trabalho é fluir a sensibilidade, achar e dar forma.

O projeto demonstra que escutar a essência do cliente e respeitar suas memórias não é apenas um gesto poético — é a ferramenta estratégica mais eficaz para construir marcas autênticas, perenes e amadas por seus públicos. Quando o design serve à história, o resultado vai muito além de um belo logotipo: transforma-se em valor real de negócio e em conexões humanas duradouras.

(*) É especialista em posicionamento de marcas, estrategista de branding e autor do livro Branding pra BraSileiro

(PRDA COMUNICA)

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