Ariovaldo Torres (*)
Além da produção agrícola, Américo Brasiliense concentrou significativa indústria de açúcar e álcool. Entretanto, apesar dos rompantes generosos dos principais capitalistas (auxílio a entidades assistenciais, doação de terrenos para construção de moradias populares, etc.), significativo passivo social se acumulou ao longo do tempo. Observa-se, por exemplo, nas ruas da cidade antigos cortadores de cana a catar sucata que, na visão ecologista míope, resume-se apenas ao blá-blá-blá do menor impacto do descarte de resíduos industriais no meio- ambiente. Louvável, mas, no caso mostra-se uma visão reducionista. Ademais, qual será o custo moral de descartar seres humanos após longos anos de atividade penosa nos canaviais e, por extensão, nos gloriosos laranjais a serviço direto e indireto à Cutrale e Citrosuco com aposentadorias miseráveis, insuficientes para a sobrevivência. Qual será a expectativa de vida dos bóias-frias? E a saúde? Marx discorreria sobre o custo da reprodução da mão-de-obra, e coisas assim. Mecanização do campo é solução para muitos problemas, certamente. Aí, surge outro problema: o que fazer com os trabalhadores expulsos da atividade agrícola? Novamente o problema é socializado, vide filas no hospital local, a fome amenizada por cestas basissíssimas, a falta de perspectivas de ampla camada da população, notadamente entre os jovens. Isso pode redundar em violência urbana, drogas, desestruturação familiar, etc.
Falta de visão ou incompetência, no concernente à cana-dependência é o mínimo que se pode atribuir aos prefeitos que têm ocupado o Palacete Benedicto Nicolau de Marino desde os fins dos anos setenta quando as colheitadeiras de cana avultavam no horizonte de quem lêsse jornais.
Nobres foram os propósitos dos prefeitos que implantaram os distritos industriais. Infelizmente, empresas que em sua maioria não quer ou não consegue nem custear o asfalto defronte às áreas generosamente concedidas. Portanto, dificilmente gerariam empregos e impostos que justificassem a ocupação da área, salvo exceções. O grande abatedouro de aves, infelizmente não pertence mais ao Grupo Sadia. O que prejudicou centenas de trabalhadores: a guerra fiscal faz suas vítimas. A FURP surge como algo redentor no discurso de políticos que têm lá o seu mérito na vinda do empreendimento, que é muito auspicioso. Entretanto, não vai absorver a mão-de-obra pouco qualificada oriunda das lides do campo.
Mudar a atividade agrícola incentivando a fruticultura, o cultivo de hortaliças, de plantas ornamentais ou medicamentosas, numa reforma agrária inteligente e competente que use mão-de-obra intensiva, afigura-se como utopia anacrônica. A Fazenda Etrúria do início do século XX que mandava frutas para a capital de São Paulo, via Ferrovia Paulista, não deixou continuadores da atividade. O (des)governo federal petista e a sua “República de Ribeirão Preto” dificilmente mexeriam com terras produtivas (para quem?). Num país tão vasto, talvez seja melhor não mexer, o custo político seria alto e coisa e tal. Mas, ao invés de assentar trabalhadores rurais nos rincões da Pátria, por que não transferir as empresas produtoras de commodities de baixo valor agregado que tendem a mecanizar a produção e a gerar poucos empregos? Será que as cidades da (in)civilização da cana têm que padecer como padeceram as cidades da civilização? Industrializar com bons resultados mostra-se difícil, como vemos nos distritos industriais já referidos. Os esforços na tentativa de trazer indústrias, mesmo quando malogrados, são dignos de reconhecimento público. Criatividade, sorte, união da comunidade ameriliense, melhoria da qualidade dos cidadãos e dos governantes principalmente, são pré-requisitos para encontrar outras soluções. Aqui, o nosso modesto texto já se entrelaça sobremaneira com a argumentação dos que aqui publicamos nesta série de artigos. Pede-se aos leitores a consulta aos mesmos nas edições anteriores deste periódico para contextualizar este que aqui se encerra.