Colaboração: Cíntia Alves
Ninguém precisa saber de todos os seus momentos, das suas lutas diárias ou de cada alegria que atravessa o seu caminho. Mas você precisa reconhecer o que vive. Entender o que sente. Prestar atenção à própria história, inclusive nas partes que não mostra a ninguém.
Ainda assim, quantas vezes olhamos para a vida do outro e acreditamos que sabemos tudo? Uma fotografia parece suficiente para medir a felicidade. Um silêncio vira motivo para julgamento. Uma boa notícia faz parecer que, naquela vida, não existe sofrimento.
Talvez tenhamos nos acostumado a tirar conclusões antes de conhecer a história inteira. Hoje, esta coluna não será um poema. Quero deixar uma reflexão e uma dica de leitura: A Revolução dos Bichos, de George Orwell.
À primeira vista, um livro com animais falantes pode parecer uma leitura simples. Mas, conforme as páginas avançam, o que acontece naquela fazenda começa a incomodar. As promessas, a maneira como as palavras são usadas, as mudanças que vão sendo aceitas… Tudo nos convida a observar com mais cuidado.
É uma obra sobre poder, manipulação e desigualdade. Sobre o desejo de transformar uma realidade e o perigo de deixar de questionar quem promete essa transformação. O desfecho é marcante, mas não vou contá-lo aqui. Parte da experiência está em chegar até ele e perceber o caminho percorrido.
Alguns leitores desta coluna sabem que também sou escritora, com cinco livros publicados. E, mesmo escrevendo minhas próprias histórias, continuo me surpreendendo com aquilo que encontro nas histórias dos outros. Há livros que terminamos e guardamos na estante. Outros continuam nos fazendo perguntas muito depois da última página.
A Revolução dos Bichos é um desses.
A leitura me faz pensar também no nosso hábito de aceitar o que parece evidente. Dentro e fora dos livros, precisamos observar, perguntar e reconhecer quando uma explicação já não combina com aquilo que está diante de nós.
Isso vale para as palavras que ouvimos, para as pessoas em quem confiamos e para a forma como enxergamos a nós mesmos. Nem sempre estamos bem só porque conseguimos sorrir. Nem sempre uma conquista apaga o cansaço de chegar até ela.
Você pode escolher o que deseja compartilhar. Ter uma parte da vida reservada é um direito. E pedir
apoio, quando necessário, também é.
Mas procure não esconder de si aquilo que precisa da sua atenção.
Minha indicação de hoje é esta: leia A Revolução dos Bichos. Acompanhe os animais, escute as promessas e observe as mudanças. Depois, ao fechar o livro, permita-se pensar no que reconheceu ali.
Às vezes, uma história nos inquieta justamente porque encontramos nela algo que já vimos acontecer.