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O enterro do “Capitão”

João Baptista Galhardo

Numa noite de sábado, oito horas, toca o telefone. Era o Flávio Ferraz de Carvalho, íntegro político de nossa terra, a qual amou como ninguém. Amigo e colega de trabalho. Queria me dar notícia do falecimento do “Capitão”. De quem? Do “Capitão” Gardino, aquele que fazia faxina no Fórum. Era, na verdade, velho conhecido. Pessoa humilde e por ele muito querida. – Precisamos ir ao velório. Ele ainda mora no Melhado. Combinamos. Ele foi primeiro. Eu fui depois. Quando cheguei, o “Capitão”, que de patente não tinha nada, só o apelido, já estava arrumado no caixão, sobre o carrinho da funerária, de quatro pneus de bicicleta, que o levaria para o cemitério. Ele morava na companhia de uma filha casada com o Clóvis do Cavaquinho, negro de muitos amigos. Tinha seis netos. Alguns puxaram à mãe. Outros ao pai. Família bastante conhecida, até mesmo porque o genro fazia parte de rodas de samba e de pagode. Os vizinhos chegando. Alguns trazendo cadeiras emprestadas, que eram encostadas na parede da sala. O Flávio já estava em campanha eleitoral para o seu segundo mandato de Vereador. Não tinha mais que vinte e cinco anos. Alguns parentes e amigos do falecido traziam nas mãos uma garrafa de pinga. De vez em quando, alguém aparecia com um gomo de salame. Como a cozinha era anexa à sala e sem porta, deu para contar seis garrafas de cachaça e dois salames sobre uma mesa. Pelas onze horas, mais ou menos, chega Benta Raquel e sua turma. Cada um com um instrumento de percussão. Percebi que a noite seria longa. Desde garoto eu conhecia a Benta, respeitada líder da raça negra, que na noite véspera de 13 de maio, organizava batuque para comemorar a abolição. No campo do brasão, acendia uma grande fogueira, com os participantes formando um círculo. Ao som de bongôs e atabaques, um homem e uma mulher rodopiavam no centro da roda, davam-se as costas, viravam de frente, batiam palmas, davam uma umbigada e retornavam para seu lugar. Enquanto dançavam, cabia ao homem fazer um verso, que era antes cantado só por ele e depois por todos, até o próximo casal tomar lugar no batuque. O Tuba, criador de galos de briga, era o parceiro preferido de Benta. Cantava sempre o mesmo verso: “Benta Raqué, ôi Benta Raqué, ocê num me qué hoje mais amanhã ocê me qué. Benta Raqué, ôi….. Reconheci alguns que chegaram com ela. Eram os mesmos daqueles tempos de batucada. Acomodaram-se na cozinha, dando início a uma cantoria alta e desafinada, pela alma do morto. Ao mesmo tempo, passava de mão em mão, uma garrafa de pinga já aberta. Cada um dava um gole no gargalo e entregava para o vizinho. Quando me deram, passei logo para o Flávio que disse: – você não bebeu. – Claro que não. Não gosto de pinga. Agora, você é candidato. Não pode fazer desfeita. Deve beber e fazer cara de quem gostou. Diga que é da boa. O que fez. A primeira garrafa não chegou dar a volta. Precisaram abrir outra. O Fumaça vem para a sala com dois pratos de papelão com salaminho cortado, regado com limão. Não tinha onde por, colocou na quina do caixão perto dos pés do defunto. Um de cada lado p’ra ninguém ter de atravessar a sala. “Olha gente, tem salame aí, é só pegar”. Ladainha, cachaça e salame. Mais cachaça. Teve um pé de cana que escorregou o cotovelo que apoiava na beira do ataúde, batendo com força na barriga do “Capitão” que chegou a mexer a cabeça. Fui embora. O Flávio ficou. Voltei para o enterro no dia seguinte, domingo, às cinco da tarde. Nesse dia jogava Palmeiras e Corinthians. Tinha mais de dez querendo puxar o carrinho com o caixão do defunto. Segurar ou nele se apoiar. Na descida do Melhado, sem calçamento, havia muito barro, por causa da chuva da manhã. Um dos puxadores tira do bolso um radinho de pilha para ouvir o jogo e os outros “aumenta, aumenta”. Também queriam ouvir. Todos deviam torcer pelo mesmo time. Num grito de GOOOL os puxadores comemoraram tirando as mãos do carrinho, que saiu em velocidade ladeira abaixo, com os acompanhantes gritando: “pega, pega, pega”. Só parou quando deu forte trombada com um poste. O caixão chegou a sair do lugar, mas não caiu porque estava afivelado por baixo. Segue o funeral. Rua Antonio Prado, vira para a Avenida São Paulo até chegar ao cemitério São Bento. Na beira da cova alguém pediu para abrir o caixão para ver o falecido pela última vez. Quando abriram, ele estava de pernas abertas, meio encolhidas, mãos desatadas, cabeça erguida, cabelos despenteados, olhos abertos e vesgos. Um olho vigiando o outro. O Zelão do bongô gritou “porra o “Capitão” tá vivo, tá vivo”. Só caiu na real quando foi lembrado da trombada com o poste. Era daí o desleixo do finado na sua última parada. Passado o susto, ele foi sepultado em desalinho mesmo. – Arrumar para que? Disse o genro. Na saída do cemitério perguntei ao Flávio sobre sua campanha durante a noite, e ele, com aquela franqueza que lhe era peculiar disse: – Bebi cachaça babada, salame com casca e parafina, cantei ladainha, toquei bongô e quando fui pedir votos, ninguém era eleitor, porque não sabiam ler nem escrever. Mas valeu, eu gostava do “Capitão”.

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