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O adivinho

João Baptista Galhardo

Numa edícula, nos fundos da residência de meus avós, morava com a mulher, um espanhol conhecido por Pepe. Não sei se de favor ou como inquilino. D. Pepe era místico. Figura interessante. Truqueiro. Nas quermesses do Carmo, se apresentava vestido de índio. Numa tenda, cobrava ingresso para vê-lo comer vidro, giletes, espada e fogo, que também passava pelo corpo como se fosse gelo. Serviço sério nem pensar. Empipocava quando lhe falavam a palavra trabalho. Dava alergia. A mulher implorava para procurar uma ocupação permanente, com registro em carteira.

Um dia, voltando da rua, disse para ela: “Dolores arrumei serviço. Você começa amanhã”. Além das suas apresentações, vivia de trambiques. Sabendo que o senhor Manoel, dono do maior bar do bairro, queria comprar um papagaio que aprendesse a falar depressa, D. Pepe pintou uma coruja de verde, amarelo e azul e lhe vendeu com um psitacídeo raro que em curto espaço de tempo seria um tagarela. Pepe, de vez em quando perguntava se a ave, exposta numa gaiola no estabelecimento comercial, já estava falando. “Falar não fala, mas vai aprender logo porque presta muita atenção nas conversas”, dizia o português. Cansado das suas apresentações, estudou cartomancia. Passou a se apresentar em público como adivinho. Só deixou essa nova profissão depois que levou uma surra de uma cliente que lhe pagou caro as consultas, sem ver realizadas as suas profecias. A profissão de adivinho é antiga. Pela leitura das mãos, interpretação de cartas ou utilização de aves. Em Verona, Itália, um adivinho dava consultas com um periquito, em praça pública. Para desmoralizá-lo o povo ateou fogo em sua casa, dizendo em seguida: “você não adivinha nem que sua casa está em chamas, como é que se atreve a falar do passado, do presente e prever o futuro dos outros?”. Há quinhentos anos, conta-se também em muitos idiomas, com variação de conteúdo e título, a história de um homem que exausto de trabalhar resolveu abandonar tudo e se apresentar de cidade em cidade, como o maior adivinho do mundo. E ganhou fama, que chegou a um palácio onde o rei, cercado por corruptos, não agüentava mais os sucessivos roubos das jóias da coroa. O adivinho se ofereceu para descobrir os desonestos. Hospedou-se no palácio. Teve tratamento de nobre. Todos ficaram logo sabendo que entre eles havia uma pessoa com poderes sobrenaturais. Quando lhe foi servido o café, disse o adivinho: “um já está visto”. Referia-se ao primeiro dia de trabalho, mas o criado pensando outra coisa, confessou imediatamente ser um dos ladrões. Foi preso. No dia seguinte, no almoço: “o segundo está aqui”. E outro criado confessou haver praticado roubo. O rei ficou admirado e lhe confiou que a safadeza no palácio era tão grande que até a sua coroa havia sido roubada. Prometeu ao iluminado hospede uma fortuna para descobrir os autores do roubo. O adivinho reuniu numa sala os criados e os assessores do rei. Cobriu um galo com um pano preto, pedindo aos presentes que passassem a mão direita nas suas costas por baixo do tecido. Pelo contato o ladrão seria denunciado com o canto do galo.

Para valorizar o seu serviço, cada vez que alguém enfiava a mão sob o pano, gritava: “galo amigo, galo amigão denuncia o ladrão”. Quando todos acabaram de fazer o que foi mandado, o adivinho pediu que mostrassem as mãos. Todos, menos dois, estavam com a mão direita suja. Disse o adivinho ao rei presente: “prenda estes dois de mãos limpas. São eles os ladrões. Eles não prestam”. É que antes, sem que ninguém visse ou soubesse, o adivinho foi até a cozinha do palácio. Passou as mãos nas panelas usadas, lambuzando as costas do galo com fuligem, aquela matéria preta gordurosa. É claro que aqueles que nada tinham a temer passaram as mãos sobre as penas. E os culpados apenas fingiram, com temor de que o galo realmente os denunciasse com o canto. E foi assim que o adivinho ficou famoso e rico, deixando a lição de que nem sempre “mãos limpas” são prova de inocência ou honestidade. Se esse método for hoje utilizado não haverá galos para todos investigados.

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