Nhô Pedro

Usei e abusei de uma velha amizade, subornei com o sentimento o sentimento de um velho amigo e assim, consegui do editor chefe desta folha um pequeno espaço para falar de um amigo comum.

Hoje, meu caro NHÔ PEDRO, você não vai ser o autor; você vai ser o assunto.

Ele foi o primeiro neto dos meus avós, João Baptista e D. Ema, e aí começaram as minhas broncas com ele, compensadas anos depois pela famosa “tábua raza”, expressão que meu pai usava para dizer que fazia tudo igual para os filhos e netos: Pensei que o Nhô Pedro tivesse convivido com o meu avô mais do que eu; inadmissível, em casa de italiano, pois no princípio do “primi figli máschile”, o “primo nipotti maschile”, fui eu, embora o Neff, a Cidinha, o Wamberto, o Billi, a Wilma, a Verinha, e a Isabelinha nasceram todos antes de mim. Além disso eu nasci, tirado pela Dona Corina, no “quarto dos meninos”, o Walter, meu pai e o Waldomiro, meu padrinho de crisma que ficou distante de mim cinquenta e dois anos, (morava em Niterói, “Federói”, como dizia meu pai), no casarão da família, aquele que está sendo revitalizado.

Em compensação, Nhô Pedro também ficou distante, casando em Itápolis e indo morar em São Paulo, e neste tempo, me aproveitei bastante dele, não só pela companhia do nosso avô.

Sua procedência, modéstia à parte, não poderia ser melhor, neto do João Baptista Zaniolo, protegido da Nona com quem aprendeu muito a ponto de moldar-se como um verdadeiro “Fachinetti”, nasceu da Tia Iride e do Waniel Caldas de Mesquita, “Ara Caramba!!!, o Tio Wanier,… o Wanier Cardas”. Que, graças a Deus, por vontade de meus pais, me levaram dentro de um saião todo branco, existente até hoje, embora marcado pelas manchas da ferrugem, até a pia batismal da Igreja do Carmo.

Quando meus pais casaram,… no dia seguinte,… logo pela manhã alguém bate firme na janela do quarto, talvez até interrompendo algo, o que seria natural. -“Tio, vim trazer o café!”. Quem foi?…

O Neffão era mateiro, vivia no Mogi; foi lá que começou a aprender muitas coisas da natureza. Gostava de conversar com os “camaradas”, que entre cobras, jacarés, mães d’àgua, sacis e mulas-sem-cabeça, lhe contavam mil histórias sem fim. O Jordelino, foi mordido pela Urutú e ficou aleijado; claro, Urutú se não mata aleija. O outro ao ser picado no dedo, não teve dúvidas, imediatamente pegou o facão e cortou o dedo. E o tio do Toninho, que sumiu? Mais tarde mataram uma sucuri com um esqueleto humano inteiro na barriga. Seria o tio do Toninho?

Velho Mogi! Grande Mogi! Querido Mogi santuário da natureza que o Nhô Pedro e todos nós amamos tanto!

Um dia ele entrou na Faculdade de Odontologia. Naquele tempo havia a recepção dos calouros. Nada deste trote burro e indecente que vemos hoje, onde os calouros todos sujos, são obrigados a atrapalhar o trânsito, pedindo esmolas para os veteranos beberem. Havia a “peruada”, um magnífico desfile, onde os calouros desfilavam com fantasias e motivos inteligentes, satirizando ou caracterizando tipos famosos da época. Causou sensação: numa carreta, finamente enfeitada por tapetes, uma queixa repousa sobre almofadas, trazendo nas mãos uma sombrinha de bambu e seda. Adivinhem quem era?…

Os anos passaram, e eu arrumei uma namorada em Sao Paulo. Nos finais de semana, apaixonado, confesso, deixava os comentários de Araraquara, (Com tanta menina boa aqui, o Zaniolo foi arrumar quem sabe quem, lá em São Paulo!), e ia ver a companheira que eu havia, finalmente reencontrado. Demorei vinte e seis anos para reencontrá-la, bem,… na verdade,… ao todo,… vários encontros,… que somam séculos, se fôssemos contar desde aquele episódio lá na Gália Cisalpina.

Durante mais de um ano ia à Sao Paulo todos os finais de semana e ficava hospedado na Casa do Nhô pedro. Sei que às vezes eu parecia um estorvo, mas algo me falava que era importante estar ali naquele momento. Poderia atrapalhar os planos do Wanielzinho, ou do Fernando, talvez até os do Fábio, mas algo me lembrava que era importante estar ali.

Nhô Pedro aposentou-se, e, como sempre quis, voltou a morar em Araraquara. Trouxe a Ana, e seus filhos, que logo se entrosaram na família. Jamais poderemos esquecer quando deu um presente todo especial aos meus filhos, Giuliana e André, trazendo no aniversário deles o palhaço Tic-Tac, seguramente o mais famosos do Brasil, pelos programas que fazia na Televisão; nunca ví a minha casa tão cheia de crianças; pequenas e grandes todos queriam ver o Tic-Taca.

Pois é… este é o Nhô Pedro Neffão, o cacique da Vila. É provável, Neff, que você vai ficar bravo comigo porque invadi o seu espaço, e mais ainda com o Polezze por ter permitido. Mas azar é todo seu. Eu não ligo, pois sei que um Fachinetti briga, xinga,… faz cara feia, mas não morde, não. No fundo, no fundo é um italiano bobo que chora por dentro, engolindo as lágrimas, que ama a seu modo. E foi com essa gente que eu convivi a minha vida inteira.

Parabéns!!! O meu abraço e o meu beijo te darei mais tarde. Por enquanto, limito-me a escrever em nome de pessoas que tanto te amam e tenho a certeza, são amados por você.

Fraternalmente,

Beppe Fumo

Compartilhe :

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

O vaivém da fome

Tragédia Gaúcha

Os dois Brasis

A Reforma tributária e o preço dos alimentos

O transporte público do Brasil está colapsando? Para onde vamos?

CATEGORIAS