A Vila Xavier, do meu tempo de criança, era característica do interior: havia até ladrões de cavalos. Eu mesmo assisti uma guerra entre policiais e bandidos, em plena manhã. Havia tipos esquisitos como Zé Botinha, Maria Bicicleta, Zé do cemitério que além de ser coveiro especial ainda era famoso como Lobisomem. Toda Vila sabia, mas, tinha medo de falar dele. A molecada era uma espécie de tribo que inibia os que se aventuravam a visitar o bairro. Era boiada estourada na estrada e que entrava na Vila assustando todo mundo, comandadas pelo Valério e seus filhos. Ao lado da nossa igreja tinha a chácara do Sr. Marracine que tinha uma porção de pequenas casas onde morava o pessoal que fugia das fazendas para a cidade onde ganharia melhor ordenado, catando café ou algodão ganhando por dia. O nosso bar era tido como o último gole, frequentado à tarde por velhas putas da cidade em busca de uma cervejinha e de algum troco dos colonos que vinham fazer as compras do mês. E, tudo de acordo, eles se embrenhavam naqueles pequenos matos na redondeza. A molecada se divertia tacando pedra nos dois “infelizes”. Os japoneses das vilinhas da vizinhança vinham de carroça, com as crianças. Suas mulheres, além de cuidar da roça, vendiam verduras na cidade. A Vila era chamada de paralelo de oito, onde era muito difícil passar. Havia também a turma do Natalino (uma porção de bandidinhos da época) que fazia seus roubos pela cidade, mas, respeitando a Vila e seus habitantes. As grandes fábricas eram construídas na Vila Xavier, talvez pelo baixo valor dos terrenos: Anderson Clayton, Dianda Lopes e ainda a Nestlé e outras fabriquetas mais. O pontilhão da Estrada de Ferro era um caminho muito usado pois já existia naquela época apesar de ser ainda tudo na terra. Polícia era a captura que pouco aparecia no bairro, além do Sargentão que morava nas proximidades e era o pavor do povo. Geladeiras nem existiam por lá, as garrafas eram resfriadas na água. Os produtos que hoje são colocados na geladeira, eram pendurados em paus. Como lingüiça e salames. A carne de porco era conservada nas latas de banha do próprio animal e a carne do açougue se comia no dia ou era salgada para guardar.