Éramos da terceira série do ginasial…eu era um aluno comum e tinha lá minhas notas para passar de ano, mas, tinha um pouco de dificuldade em Latim. E era tempo de namoricos onde a gente mais flautava que estudava. Meu pai era viajante, mas, sempre preocupado com a minha escolaridade. Na realidade ele queria que eu fosse padre ou militar, as profissões que para ele eram as melhores de seu tempo. Eram férias… eu fui ao ginásio consultar as minhas notas de exames de fim de ano, passei em todas menos no Latim que me deixou para a segunda época. Assim era a escola naquele tempo. O diretor, muito amigo da gente, me avisou logo na minha chegada que meu pai já tinha passado por lá e sabido das minhas notas que o deixaram furioso. Nesta altura eu dormia na casa da minha tia que iria se casar. Tomava conta da casa que ficava perto do colégio. Levantei uma dez horas e resolvi passar no colégio, estava de sapatos novos de crocodilo, roupa nova também, pois a gente tinha que representar aquilo que a gente era na época: elegante e arrumado. Já subi para a Vila – onde morava meus avós, eu e meus pais – prevenido do que iria acontecer e não deu outra: meu pai estava acabando o seu almoço quando me convidou para subir para falar comigo. Como ele era conhecido na família, a maioria levantou-se e nos seguiu até a parte de cima da casa. Todos esperavam o que iria me acontecer principalmente minha avó. Minha mãe também correu para junto de mim e ele pegou no seu chicote de couro e partiu para cima de mim sem dizer uma palavra sequer. Dei-lhe um grande drible e a segunda chicotada pegou minha mãe que estava ao meu lado. Em seguida corri, pulei a cerca do quintal e depois o muro para descer pelo mato afora. Na linha do trem encontrei uns amigos, caçadores de rolinha, estraçalhei os sapatos novos e meias com sangue de pássaros e pedi a eles que levassem tudo para minha casa a fim de entregar em mãos da minha vó, com a seguinte observação: tinham achado na linha do trem e não tinham me visto. De lá eu fui para o lado de Américo e peguei o caminho do Mogi onde tínhamos um pequeno sítio que na época nem era visitado devido às enormes chuvas que caiam. Era época de derrubada de matas e fui parando pelos ranchos da estrada, quando a fome me apertava. Dormi numa árvore e só cheguei ao sítio na manhã seguinte. Fiquei até o fim das férias quando fui descoberto pela família estando numa canoa. Fiz um trato com meu pai: nunca mais apanhar para voltar para sua casa e deu certo.