Na indignação, a saudade do escambo

Geraldo Polezze (*)

Eu tinha arroz sobrando e você, feijão. A gente trocava e todos comíamos a dupla de sucesso. Depois do escambo, da troca que atendia as partes, chegou a moeda. No presente, a dos Estados Unidos ganhou a dianteira e, por ser mais forte, acabou substituindo o lastro-ouro.

Numa estratégia predadora começa a emprestar para os países em desenvolvimento a fim de que possam comprar bens produzidos por sua indústria. Eles ficam cada vez mais fortes, sufocando o terceiro-mundo. O Papa, inclusive, chegou a pedir que perdoassem a dívida que só cresce, empobrece o povo e reflete-se em violência ao ser humano. Mas, os credores nem deram bola. Estamos em suas mãos como mendigos que, ciclicamente, batem às portas… do FMI. A dependência é assustadora, chega a ser revoltante. Em nome da globalização um espirro deles significa uma gripe que extermina a América do Sul. Mexem e brincam com o dólar para multiplicar sua riqueza avassaladora. E pobre do país escolhido para perder no jogo-de-braço.

Um funcionário do tesouro americano emite parecer, candidato a presidente fala que precisa reestudar as dívidas e …pronto: a economia brasileira é torpedeada e mostra-se frágil na batalha contra o Tio Sam.

Nesse clima, os empresários brasileiros beijam a lona, firmas conceituadas são fechadas e muitas outras sabem que vão encarar sérios entraves e acabar na míngua. Notadamente quem produz no dólar e vende no real e, ainda, tem que enfrentar uma concorrência interna das mais violentas. Acabam vendendo o almoço para jantar…

As questões sociais se avolumam, até com a banalização da vida, e nós temos que implorar a misericórdia americana para continuar rolando a dívida que, todos sabemos, é impagável.

A verdade que dói: cada brasileiro nasce devedor e, ao morrer, deixa de herança a dívida aos seus pobres sucessores, todos irremediavelmente inadimplentes. É triste saber que pertencemos a um país de subordinação perene, que vivemos do faz-de-conta e que somos tão vulneráveis.

Esse modelo, no entanto, faz água e passa da hora de dizer basta aos insensíveis que têm o poder do dinheiro e maltratam nossa gente. Cada um, como fermento, pode e deve se manifestar. Assim não dá, senhores. Não aceitamos ser tratados de forma canhestra e desumana. Até quando o dólar será mais importante que a dignidade de nosso país?

Caro leitor, você sabe quanto deve?

Parafraseando João Cabral de Melo Neto, qual é a parte que te cabe neste latifúndio, nesta morte e vida Severina?

Ainda temos o direito (ou obrigação?) de espernear.

(*) É jornalista-editor.

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