Produtos prometem aliviar insônia, ondas de calor, ressecamento e cansaço, mas escolha depende do sintoma, dos exames e do histórico de saúde de cada mulher
A menopausa tem sido cada vez mais associada a suplementos que prometem melhorar o sono, pele, disposição e ondas de calor. Vitamina D, magnésio, óleo de prímula e óleo de borragem estão entre os mais procurados.
Mas os produtos não funcionam da mesma forma para todas as mulheres e, em alguns casos, podem ser desnecessários ou trazer riscos. A médica nutróloga Dra. Mariana Wogel explica quando a suplementação pode fazer sentido e por que a investigação deve vir antes da compra.
A mulher que atravessa a perimenopausa muitas vezes se reconhece em uma sequência de mudanças que parecem acontecer ao mesmo tempo: noites interrompidas, calor repentino, pele mais seca, intestino diferente, cansaço sem explicação clara e maior dificuldade para controlar o peso.
Em meio a esses sintomas, suplementos aparecem como uma resposta aparentemente simples. Nas redes sociais e nas prateleiras das farmácias, fórmulas prometem cuidar do sono, da pele, dos fogachos e até do metabolismo. Mas a pergunta “qual suplemento devo tomar?” não tem uma resposta universal.
“Suplementar não é sinônimo de cuidar melhor da saúde. O suplemento pode ser um aliado quando existe necessidade e indicação, mas não deve substituir a investigação do que está acontecendo no corpo”, afirma a médica nutróloga Dra. Mariana Wogel.
O corpo muda antes da última menstruação
A perimenopausa é a fase que antecede a menopausa, definida após 12 meses consecutivos sem menstruar. Ela pode durar anos e é marcada pela oscilação, e não apenas pela queda, dos hormônios ovarianos.
É nessa etapa que podem surgir irregularidade menstrual, mudanças de humor, insônia, ondas de calor, secura vaginal, alteração da composição corporal e maior tendência ao acúmulo de gordura abdominal.
Os sintomas variam em intensidade. Algumas mulheres passam pela transição com poucos incômodos. Outras têm a rotina afetada por sono ruim, exaustão, fogachos repetidos ou alterações emocionais. Por isso, a decisão de usar suplementos precisa partir do sintoma predominante, da alimentação, dos exames e do histórico individual.
Vitamina D é importante, mas não serve para tudo
A vitamina D tem papel conhecido na absorção de cálcio, na manutenção óssea e na função muscular. Após a menopausa, a queda do estrogênio pode acelerar a perda de massa óssea, o que aumenta a atenção para osteopenia e osteoporose.
Nessa fase, a suplementação pode ser considerada para mulheres com deficiência comprovada, baixa exposição ao sol, fatores de risco ou alterações identificadas na avaliação médica. O uso, porém, não é uma resposta automática para fogachos, insônia, ansiedade ou ganho de peso.
“Vitamina D é relevante para a saúde óssea e muscular, especialmente nessa fase da vida. Mas a dose precisa ser definida de acordo com cada caso. Tomar sem orientação pode levar a excessos e não tratar, necessariamente, o sintoma que mais incomoda a paciente”, diz Wogel.
Em quantidades excessivas, a vitamina D pode elevar o cálcio no sangue. Pessoas com doença renal ou em uso de determinados medicamentos precisam de avaliação ainda mais cuidadosa.
Magnésio melhora o sono?
O magnésio ganhou fama como suplemento para relaxamento, ansiedade, intestino preso e insônia. O mineral participa de diversas funções do organismo, entre elas o metabolismo energético e a atividade neuromuscular. Isso não significa, porém, que ele seja um tratamento comprovado para todos os sintomas do climatério.
Para a nutróloga, o sono ruim durante a menopausa precisa ser investigado antes de ser tratado apenas com um produto. A mulher pode acordar por causa de fogachos, suor noturno, apneia do sono, ansiedade, consumo de álcool, excesso de cafeína, dor crônica ou mudanças na glicose durante a madrugada.
“Dormir mal não é um diagnóstico. É um sintoma. O importante é descobrir o que está interrompendo esse sono. O magnésio pode ter espaço em algumas situações, mas não resolve sozinho uma onda de calor recorrente, uma apneia ou uma alteração metabólica”, afirma a médica.
Além disso, doses elevadas podem causar desconforto abdominal e diarreia. Em quem tem insuficiência renal, a suplementação exige atenção redobrada.
O risco de tratar sintomas sem descobrir a causa
Cansaço, baixa energia, queda de cabelo, alterações no peso e insônia podem estar relacionados à menopausa. Mas também podem ter outras origens.
Anemia, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, resistência à insulina, depressão, apneia do sono e efeitos de medicamentos são alguns exemplos de condições que podem se confundir com sintomas do climatério.
Por isso, iniciar uma sequência de cápsulas sem avaliação pode retardar diagnósticos importantes. A recomendação é que o acompanhamento considere rotina, alimentação, padrão de sono, composição corporal, ciclos menstruais, medicamentos em uso e exames solicitados de acordo com cada necessidade.
“Nem todo cansaço é falta de vitamina. Nem toda insônia é falta de magnésio. E nem todo fogacho precisa ser tratado com suplemento. O cuidado mais seguro começa quando se entende o problema”, afirma a médica.
O que pode fazer diferença além das cápsulas
A suplementação pode complementar o cuidado, mas não substitui hábitos que influenciam diretamente a saúde da mulher após os 40 anos.
Atividade física regular, especialmente exercícios de força, ajuda a preservar massa muscular e contribui para a saúde óssea. Alimentação com proteína suficiente, fontes de cálcio, frutas, legumes, feijões e cereais integrais também participa da prevenção de perda muscular e de alterações metabólicas.
Sono, consumo de álcool, tabagismo, estresse e qualidade da alimentação fazem parte dessa equação. Para sintomas vasomotores moderados ou intensos, a terapia hormonal segue como a opção mais eficaz quando não há contraindicações e após avaliação individual de riscos e benefícios. Estratégias não hormonais e medicamentos específicos também podem ser considerados.
Antes de começar um suplemento
Antes de incluir qualquer produto na rotina, vale avaliar:
- Qual sintoma se quer tratar;
- Se existe deficiência nutricional confirmada;
- Quais medicamentos já são utilizados;
- Se há doença renal, hepática, cardiovascular ou histórico de convulsões;
- Qual é a dose e a composição do suplemento;
- Se existe risco de interação medicamentosa;
- Se há um tratamento mais apropriado para a queixa principal.
“Menopausa não é uma fase que deve ser vivida com resignação, nem com automedicação. Suplementos podem contribuir, mas precisam estar inseridos em um plano de cuidado que respeite a história e as necessidades de cada mulher”, conclui Dra. Mariana Wogel.
Sobre a Dra. Mariana Wogel

Médica especialista em Nutrologia pela ABRAN/AMB, RQE 33691 com atuação em saúde feminina, emagrecimento, fertilidade e medicina integrativa. Autora de dois livros e criadora do Programa Ser Livre, atende em Três Rios e Itaipava com foco em cuidado integral, acompanhamento contínuo e saúde da mulher em diferentes fases da vida.
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