N/A

Mácula antiga

José Renato Nalini (*)

A corrupção no Brasil existe ao menos desde a chegada lusa. Algo ínsito à fragilidade humana, deve ter existido no período colonial e imperial. Mas nunca se viu tão descarada, desabrida e desavergonhada, quanto na República. Não é preciso procurar muito.

Morria em 1930 o ex-Deputado Pereira Teixeira, considerado o último sibarita republicano. Figura de terceira ordem no domínio intelectual, possuía, contudo, um tato especial para os negócios escusos, para a advocacia administrativa e para os conchavos. Foi assim que fez fortuna.

Sua biografia é prenhe de exotismos. Quando chegou ao Amazonas, ganhou uma causa que lhe rendeu milhões. Festejou o acontecimento oferecendo à sociedade de Manaus um baile como ali jamais se vira. Durante as danças, ofereceu às senhoras presentes, joias valiosas.

Encarregado de realizar em Paris um empréstimo para o governo amazonense, apresentou-se ali com uma comitiva principesca. Ofereceu à esposa de um político francês um automóvel muito caro, dentro do qual havia um cão de raça e pedigree e cujo motorista estava remunerado por um ano inteiro. Dizia-se, até, que o primeiro automóvel que Rui Barbosa possuíra era presente seu.

Como a maioria dos políticos profissionais, Pereira Teixeira adorava as mulheres e vivia entre elas. Tinha as amantes que queria e as transformava, depois que as deixava, em amigas sem ódio. Amigo dos maridos, reunia na casa de uma delas, todas as odaliscas, divertindo-se em banquetes nababescos, como um alegre sultão.

Já com sessenta anos, tomou por amante uma senhora ilustre, cantora famosa, mas em cuja fidelidade não podia confiar. Telefonou-lhe uma tarde: – “Estás pronta para sair?” – “Não”.

-“Veste-então, a toda pressa, para nos encontrarmos agora mesmo!”.
Vinte minutos depois, chegavam ambos à chácara que ele possuía na Tijuca, o Parque Cochrane, que pertencera a José de Alencar.

-“Despe-te”, ordenou.
E após um instante de amor: – “Veste-te, para sairmos”.
Assim que ela se aprontou, ele tirou do bolso o seu cronômetro de ouro e observou: – “Quarenta e sete minutos! O que eu quis ver foi, apenas, o tempo de que precisas para me trair…”.

Comportamento insólito nunca foi impedimento a que alguém adentrasse e permanecesse na vida pública.

(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.

Compartilhe :

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Navios Fulôs

Mácula antiga

Elson Longo lidera ranking 2026 da Research.com e é o principal cientista do Brasil em Química

A rejeição a Messias, o colapso da velha Política e a falência do presidencialismo de coalizão

Deepfakes e fraudes digitais: a ameaça invisível contra o consumidor idoso

CATEGORIAS