Língua Pregada e Língua Torrada

Recém-formado em Medicina, chegando a Araraquara, fui convidado a trabalhar no Serviço Especial de Saúde. Quem me convidou, na ocasião, foi o Diretor da entidade, Dr. Amaury Pinto de Castro Monteiro, baluarte da Saúde Pública em nossa cidade, juntamente com o inesquecível Dr. Ruy Soares.

Trabalhei em vários setores, mas onde permaneci mais tempo foi na Clínica Infantil, atendendo, na ocasião, 33 crianças por dia. Acompanhavam minha clientela as visitadoras domiciliares, que atuavam como verdadeiras fiscais das orientações que eu dava: a vereadora Deodata, a Amelinha, a Cida Amaral, a Mafalda e outras. Bons tempos!

Meu papel era cuidar da saúde geral das crianças, receitar leites, medicar, indicar as vacinas, orientar o tratamento com especialistas e promover a correção de defeitos. Esta parte era a minha predileta, porque muitas das deformidades são corrigíveis através da Cirurgia Plástica.

As mães gostavam dos meus métodos, através dos quais tratei de bebês que hoje são pais de família. Elas diziam: "Vamos lá no Dr. Guaracy porque ele vira a criança no avesso…" O que elas queriam dizer era que eu ficava procurando dedos grudados, umbigos com hérnia, ânus fora do lugar, defeitos no pipi ou na xoxotinha, ouvidos fechados, pescoço torto, problemas nas moleiras e defeitos dentro da boca.

Certo dia, me apareceu por lá uma "menina" chamada Maria Aparecida, trazida pela avó, porque a mãe havia falecido no parto. Ao examiná-la pela primeira vez, falei para a avó que a criança não era menina, era um menino. O pipizinho dele era do tamanho de um dedinho de galinha e os bagos dele estavam dentro da barriga, havendo apenas duas pregas de pele que pareciam uma vulva. A avó sentiu firmeza no que eu disse e expliquei e já começou a chamar a criança de Mário Aparecido. Eu o operei a partir dos 4 anos de idade, num total de 6 cirurgias e o cartório lhe fez um novo registro de nascimento, com um nome de menino escolhido por ele. Ao tornar-se um jovenzinho, ele fazia a maior festa quando me via. Ele trabalhou num banco aqui na Avenida Portugal, como guarda-mirim, e faleceu de acidente. Não posso esquecer de um caso tão marcante como esse.

Entre os defeitos que eu observava, o mais comum era o de língua pregada. Este é nome popular que se dá à língua quando o freio que existe debaixo dela é curto. Eu consertei centenas e centenas de línguas curtas, que iriam atrapalhar a fala. O freio da língua é aquela pelinha feito um cordão que prende a língua em baixo. Muitas vezes essa pelinha é curta ou carnosa, encurtando a ponta da língua. Quando isto acontece, a gente pode cortar essa pelinha numa só tesourada, não precisa anestesiar, sai apenas uma gotinha de sangue, não precisa dar ponto e cicatriza rapidinho. Na maioria das vezes, eu acabava de dar um corte no freio e a criança já saía de lá esticando a língua prá fora toda feliz. Ficava mais fácil prá mamar, prá tomar sorvete e prá falar.

Há inúmeros adultos que não passaram por essa pequena correção e falam de uma forma esquisita. Sugiro aos leitores que ouçam a chamada Hora do Brasil, no rádio. Há um dos locutores que tem a língua pregada e fala de um modo esquisito por causa disto. Se ele tivesse passado por mim lá no SESA, entre 1962 e 1989, estaria falando hoje com mais facilidade e poderia até ser locutor de noticiário de TV.

Meus cortes de freio de língua da criançada ficaram famosos, de tal forma que muitas mães chegavam ao SESA já pedindo prá eu dar uma olhada na lingüinha dos bebês. Volta e meia, atualmente, pára alguma senhora em minha porta para me fazer lembrar que, há vinte ou trinta e tantos anos, cortei a língua do filho ou da filha, hoje adultos.

Certa vez, entrou em minha sala certa mãe trazendo um menino de 5 anos incompletos. Ela foi logo dizendo que o menino havia queimado a língua e que as vizinhas dela mandaram que me procurasse porque quem consertava línguas era eu.

Chorando, ela me mostrou a língua do filho. O garoto gostava de cantar as músicas do Roberto Carlos. Naquele dia, a mãe havia colocado um fio elétrico de extensão na tomada da sala, para conseguir chegar até ao alpendre com a enceradeira. Ao terminar o serviço, antes que desligasse a extensão, o menino pegou a tomada fêmea do chão e, imitando um microfone, começou a cantar "…e que tudo mais vá pro inferno". Ao terminar, ele encostou a tomada fêmea na boca e lambeu. A saliva ajudou a conduzir a corrente elétrica e cada buraquinho da tomada torrou um lado da ponta da língua, como mostra o terceiro desenho da série. Ele desmaiou com o choque e a mãe conseguiu reanimá-lo, por sorte.

Internei o menino na Santa Casa e o operei à tarde. Cortei as partes torradas, deslizei a mucosa e consegui recompor os defeitos. Fiz uma boa camaradagem com o garoto durante o tratamento e, em cada retorno, brincava de chamá-lo Roberto Carlos e ele ficava contente com isto.

Acreditem os leitores que recentemente, entrando na UNIARA, avistei um jovem que tinha as mesmas feições do menino, bem guardadas em minha memória. Não havia, evidentemente, uma certeza absoluta de minha parte, mas arrisquei dizer: "Roberto Carloooossss". Ele olhou na hora e, com uma fala perfeita, perguntou-me se eu era o Dr. Guaracy e foi aquela festa de alegria quando ele me abraçou.

No dia seguinte, a mãe dele me telefonou e disse: "Doutor Guaracy, boa tarde, meu filho disse que viu o senhor lá na Faculdade."

Eu fui logo dizendo: "Pois é, fiquei emocionado porque ele ficou contente de me ver após tantos anos…" Na simplicidade, ela me retrucou: "Nada disto, Doutor, ele ficou contente porque o senhor chamou ele de Roberto Carlos, ele adora o Roberto Carlos…"

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