Homem não chora?

Rosa Godoy (*)

Na semana passada, a imprensa deitou e rolou com o choro dos homens. Mostrou o choro do Romário, rejeitado por Felipão, dando pano para manga entre os amantes do futebol. Choro de arrependimento por ter sido sempre o bad boy da seleção e agora ter que pagar por isso, ficando de fora do time. Deu espaço para o choro do Garotinho, ex-governador do Rio de Janeiro, emocionado durante cerimônia religiosa de encerramento do seu governo. Lágrimas de menino bonzinho, inocente das acusações de desvio de erário público! Dizem as boas línguas que até o marido de Roseana Sarney, Jorge Murad, chorou ao concordar que o escândalo da sua empresa, a Lunus, embaçou a candidatura da mulher à presidência da república. Arrependimento, emoção, sensibilidade, tudo ficou registrado no mar de lágrimas… de cuecas.

Interessante como, de repente, uma manifestação que, quando vinda de homens só existia entre quatro paredes, de repente, sai do privado e invade o público, contrariando o sistema consuetudinário em relação à expressão da masculinidade. Quem não se lembra do macho pai, criando o macho filho, aos berros de homem não chora ou engula o choro?

Mergulhando mais fundo, constata-se que de uma hora para outra, qualidades tidas como femininas, pois reveladoras da sensibilidade, da emoção, da fragilidade características das mulheres, são adotadas por homens, sem prática nem habilidade, sem pudor, sem nem mesmo medo de serem taxados de homossexuais, pois no universo masculino, somente a eles são permitidas…

Qual seria a real finalidade disto? Mostrar-se sensível à dor da perda (seja ela qual for, de futebol a governo) ou que os homens também têm coração e que, de repente, os protagonistas de cenas tão comoventes apenas agora se deram conta disso? Ou estariam tão fragilizados que nada mais lhes resta senão chorar, nem que sejam lágrimas de crocodilo?

Seja lá o que for, creio que o fim (expresso) é o que menos importa. De um jeito ou de outro, querem mostrar que chorar também é parte do masculino… Eu completaria: desde que seja por uma boa causa… E aí vale até importar lixo do sexo frágil. Sim, porque tirando a comoção, choro de mulher também é tido ora como chantageador, ora como histérico, nem sempre como prova de vulnerabilidade, que a maior parte das mulheres nem tenta nem teima em esconder.

Então, senhores (do tipo dos que choraram na semana passada), podem apropriar-se, usar e abusar de coisas nossas, se o querem. O que revelam mesmo é uma grande e confusa incompetência, pois suas lágrimas testemunham de idiotice a teatralidade, jamais sua verdadeira humanidade. Em se tratando de choro isto (ainda) é prerrogativa nossa, das que choram de verdade…

(*) É Enfermeira e colaborada do JA.

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