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Histórias de Circo

João Baptista Galhardo (*)

Um divertimento milenar que está desaparecendo. Não é o circo que está acabando. Os espaços para instalação é que estão sumindo. Não há quem não aprecie um espetáculo circense. Seja de animais. De variedades. De teatro. De shows ou de mágicos. É entretenimento que atrai pais com filhos e avós com netos. Além de oferecer empregos temporários quando passam pela cidade, dão grande exemplo de cooperativismo. O atleta que voa no trapézio e a contorcionista que faz malabarismo pendurada pelos cabelos são os mesmos que no intervalo vendem algodão doce e pipocas. Certa vez instalou-se um circo de variedades, inclusive teatro. A programação compreendia uma peça por dia: A Vingança do Chico Mineiro. Menino da Porteira. O Céu Uniu Dois Corações. O Ébrio. Porta Aberta. Juca Mulato. Santa. E não poderia faltar a “Paixão de Cristo”. É claro que sem os efeitos especiais e os recursos milionários de Mel Gibson. Mas dentro das possibilidades e da seriedade de um circo modesto. Aliás, ele iria inaugurar a temporada justamente com essa peça. Acontece que o artista que representaria Cristo foi internado em estado de coma alcoólico. A peça precisava ser apresentada. Tinham vendido ingressos. Como esse personagem fala pouco na representação, o diretor do circo lembrou de uma figura popular na cidade, que ajudara erguer a lona: o Chicho, a quem ofereceu o papel. “O que eu preciso fazer? Nada. Em determinado momento vamos colocar uma coroa de espinhos na sua cabeça. Não vai machucar porque é de borracha. O “sangue” que sairá de dentro dela é água com suco de groselha. As lanças que lhe atacarão têm pontas de borracha ocas cheias de extrato de tomate. Você dá uma volta na arena e retorna para o palco”. “Só duas coisas não abro mão, disse o Chicho: não tiro o óculo escuro nem minha alpargata do pé. Fica esquisito o Cristo com Ray-Ban (à noite) e sapato de lona com sola de corda. Mas era pegar ou largar. E assim foi. No último ato. Pano arriado. O Chicho, já no palco, agora descalço e sem óculos, foi amarrado na cruz, inclusive um pé sobre outro, apoiados num pequeno suporte. Enquanto preparavam o cenário, o Chicho que falava italianado disse “ei… quem me dá um cigaro?” Acenderam um cigarro e colocaram na sua boca. Ele tragava pelo canto esquerdo e soltava a fumaça pelo direito. Sem qualquer aviso e de repente ergueram o pano. O Chicho mais do que depressa cuspiu o cigarro que infelizmente parou aceso entre seus pés. Nisso a personagem Madalena se aproxima e antes que falasse alguma coisa, o Chicho, como um ventríloquo, com a boca semi cerrada falou “Madalena o cigaro tá me queimando o pé”. Ela não entendia e retornava ” o que dizeis?”. E ele: “Madalena o cigaro tá me queimando o pé”. Como não ouvia mesmo, e a brasa e a dor iam aumentando, o Chicho deu um berro de se ouvir fora do circo “Madalena desgraçada, o cigaro tá me queimando o pé”. A platéia foi ao delírio. Não parou de rir. Pensou que fazia parte da peça que foi encerrada naquele momento. Mas o circo foi embora de madrugada. Outro circo foi montado no antigo campo do Brazão. Ficou muito tempo instalado. Na sexta feira era proibido para menores de dezoito anos. Poderia haver sexo explícito na arena. É que o circo oferecia uma quantia para quem passasse por três desafios: tomar dois litros de pinga de uma só vez. Entrar na jaula. Aí manter relação sexual com uma velhinha de noventa anos e depois enfiar a mão na boca de um leão de uns duzentos quilos. Semanas se passaram e ninguém aceitou a provocação. Até que numa sexta feira o Bigode, pintor de parede, forte como um urso, topou a parada. A grana como prêmio era alta. Ele entrou na arena. Sem tirar o gargalo da boca tomou o primeiro litro de pinga. No segundo foi mais devagar. Pediu uns amendoins para ajudar, mas conseguiu cumprir a primeira etapa. Em seguida entrou na jaula. A velhinha numa camisola branca de cetim estava atrás de um biombo. O leão ali no meio. Assim que entrou, o Bigode e o leão se encararam. De repente não se viu mais nada. Foi só terra que voou com palha de arroz num redemoinho que não se enxergava coisa alguma. Não se sabia nem se via quem estava sobre quem. Só se ouvia gritos e urros. Assim que baixou a poeira deu para ver. O leão ofegante, de bruços na terra, com as quatro patas esparramadas. E o Bigode em pé, cambaleando perguntou “cadê a velhinha para eu enfiar a mão na boca”.

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