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“Elegância” do BC

Antonio Delfim Netto (*)

Nos dias que precedem a reunião mensal do Conselho de Política Monetária do Banco Central, a mídia procura antecipar qual será a decisão desse egrégio cenáculo a respeito da taxa básica de juros. Na semana que passou não foi diferente: os jornalistas fizeram seu árduo trabalho, ouvindo economistas, politicólogos, analistas financeiros com o objetivo de transmitir aos leitores e ouvintes alguma coisa próxima do que seria a média de opiniões no “mercado”. Desta vez não houve muita divergência, a maioria apostou na queda da taxa a partir do comportamento dos preços nas últimas semanas e da expectativa em relação ao cumprimento da meta inflacionária. O COPOM, no entanto, resolveu manter a SELIC nos 19.75%, sem viés de baixa. O que as pessoas deixaram de assinalar é que o nosso Banco Central faz questão absoluta de ser “elegante”, como ele pensa que são os bancos centrais do mundo desenvolvido. Após 9 meses de altas, não seria elegante inverter a mão porque passaria a impressão que tinha exagerado na alta…

Os leitores que têm a paciência de me acompanhar nesses comentários semanais, conhecem o que penso a respeito da qualidade dos argumentos que o COPOM utiliza para explicar a necessidade de juros de tal sorte indecentes para combater a inflação: são absolutamente inconsistentes. Não tenho dúvida que no futuro serão julgados de forma muito mais severa. A realidade é que estamos reduzindo a inflação à custa de permitir uma escandalosa arbitragem de taxas de juros que sustenta a sobrevalorização do Real. A esta altura do ano o Real é a “commodity” mais valorizada pelos especuladores internos e externos, dada a fantástica taxa de retorno proporcionada pela diferença das taxas de juro.

Essa valorização é na verdade um subsídio que gera distorções em todo o sistema de preços e atinge particularmente o setor exportador. O subsídio cambial é pago pelo Tesouro, na forma de maior dispêndio com os juros que mantêm o real valorizado. Ele introduz uma insegurança que já produziu o encerramento de algumas centenas de pequenos e médios negócios de exportação por todo o país nos últimos meses. Há ainda dois aspectos muito importantes, que não esgotam o rol de conseqüências nefastas da valorização do real sustentada pelas altas taxas de juro: 1. apesar de todo o esforço para reduzir a dívida pública, mesmo tendo feito um superávit primário de 60 bilhões no primeiro semestre, tivemos que pagar 80 bilhões de reais de juros; 2. Estamos fazendo uma brutal transferência de renda dos que trabalham, para os rentistas.

Mas o Banco Central não pode abrir mão da elegância…

E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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