José Renato Nalini (*)
No mesmo dia em que se noticiava que o Ministério da Agricultura faz críticas à meta para zerar desmatamento, sabia-se que indígenas da Amazônia desenvolvem barcos movidos a energia solar e aposentam o uso do diesel.
Uma inversão da ordem preconceituosa estabelecida por certas pessoas destituídas de noção mínima sobre o real estado do mundo: os indígenas seriam os “atrasados” e a “civilização” seria monopólio dos colonizadores.
A ciência já perdeu a voz de tanto anunciar que os limites de extração dos recursos terrestres já foram ultrapassados há muito. A emissão de gases venenosos que estão submetendo a humanidade à mais séria crise já enfrentada por ela condena toda espécie de vida a uma célere extinção. O único remédio para estancar a resposta da natureza vulnerada é o reflorestamento. Houvesse juízo, material em falta no mundo contemporâneo, e todos plantariam em qualquer espaço disponível. Mais do que isso, é urgente devolver ao ambiente aquilo que dele se subtraiu ao longo dos séculos. Quebrar o concreto, retirar o asfalto e plantar.
Árvore: a tecnologia mais eficiente e mais barata para recompor a ordem ferida. Custa a crer que o Ministério da Agricultura e Pecuária, que depende da natureza para continuar a produzir, considera “fora da realidade e da razoabilidade, sendo impossível de ser cumprida” a ação de eliminar o desmatamento ilegal em áreas púbicas de todos os biomas brasileiros.
A razão está com os indígenas, que levam mais a sério a urgência da sustentabilidade e faz com que as embarcações do projeto Kara Solar sejam movidos pela energia do Astro Rei.
Enquanto os indígenas se mostram sensatos e economizem toneladas de emissões de CO2, os “civilizados”, em nome da cupidez, da ambição e do imediatismo, querem descumprir acordos firmados em Dubai, na COP28. Mais do que cessar, de imediato, o desmatamento ilegal – crime ambiental inafiançável – é preciso recuperar a vegetação nativa, reordenar o território e fazer regularização fundiária. O compromisso é de todo o Brasil e, nesse caso, o Ministério da Agricultura está na contramão.
(*) É Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário Executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo.