João Teodoro da Silva (*)
A Patek Philippe, uma das mais famosas e desejadas marcas mundiais de relógios de luxo, veiculou uma campanha publicitária com o slogan: “Você nunca é realmente dono de um Patek Philippe. Você apenas cuida dele para a próxima geração”. A frase em questão pretendeu induzir a ideia de que um Patek Philippe é para sempre. Todavia ela provoca profunda reflexão sobre o que construímos ao longo da vida. Uma organização bem estruturada, empresarial ou corporativa, não é simples patrimônio, é um legado, como o é a marca em questão.
Construir uma corporação respeitável é uma ação que transcende a lógica do acúmulo patrimonial. A energia, disciplina e visão empregados na sua construção carregam valores, cultura e propósito que constituem um legado, não apenas patrimônio. Este pode ser consumido e dilapidado em poucos anos, porém um legado atravessa gerações. É aqui que resplandece a responsabilidade de quem o constrói: preparar sucessores não só para administrar recursos físicos, mas para compreender o significado do que receberam e a missão de preservá-lo.
Quando uma organização sólida e respeitável é entregue a pessoas despreparadas, o resultado é previsível: decisões frágeis, desperdício de recursos e evasão da credibilidade. O que se dilui não é apenas o patrimônio, mas a reputação construída ao longo do tempo. Por isso o desafio é garantir que os princípios que sustentaram a construção sejam continuados pelos sucessores. Para isso, no entanto, é preciso saber escolhê-los e prepará-los. Não é fácil! Tratando-se de organizações corporativas, a ambição pelo poder agrava o problema.
Preparar sucessores, portanto, não depende apenas de consciência e disposição; é ato de coragem, perícia e responsabilidade, que exige o enfrentamento de conversas difíceis sobre capacidade, possibilidade, poder e conflito de interesses. É nesse terreno delicado que se decide se a organização será capaz de atravessar gerações, ou se será apenas mais uma história de sucesso interrompido. Porém temos de compreender que somos finitos, embora planejar a sucessão não seja antecipar a morte e, sim, garantir a vida da organização.
O legado de um sistema não se transmite por termo de posse ou instrumento jurídico. Ele se translada por meio de conversas, ensinamentos, exemplos e na prática cotidiana de valores. É preciso ensinar o significado do risco, a importância da disciplina e o peso da responsabilidade. Sem esse esforço, o que foi construído pode até ser preservado por algum tempo, mas cedo ou tarde tornar-se-á vulnerável. Sua continuidade não se garante com os ativos, e sim com os critérios que orientarão como eles serão utilizados e preservados.
Pois bem! O Sistema Cofeci chegou a esse impasse. Depois de anos de estruturação, amadurecido e patrimonializado, tornou-se alvo de ambição não só pelo patrimônio que ostenta, mas pelo poder que se supõe dele emanar. O momento, portanto, é de se pensar na preservação do seu legado organizacional. Por isso o Cofeci planeja a implementação de um programa de preparação de lideranças em conhecimento de gestão pública que possam, sem jactância, mas com efetivo saber, dar continuidade sustentável ao legado até aqui conquistado.
(*) É Presidente – Sistema Cofeci-Creci