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Coisas da vida banal

Léo Rosa de Andrade (*)

A relação conjugal, o cotidiano de um par amoroso forma cumplicidades, cria segredos, inventa dizeres só seus. Também mostra o avesso de cada qual e suprime inibições. Após algum tempo, segundo me contam, na intimidade de um casal quase tudo está exposto por um diante do outro.

Não se trata de perder a vergonha. Parece que a vergonha perde o sentido. Ora, vergonha é falta de confiança em si ou escrúpulo diante do outro, o que leva à repressão de grandes e pequenas vontades. O cotidiano vai dando jeito nessas coisas. Num dia, atos contidos; noutro, tudo é trivial.

De fato, o dia a dia vai produzindo uma moralidade doméstica, com etiquetas para compreensão e uso do casal. Nessa moralidade caseira paulatinamente se vai diluindo a moralidade individual das partes que gozam de intimidade. As partes se sabem, com tudo o que isso tem de bom e mau.

Entre a porta da sala e a da cozinha há mais segredos do que entre o céu e a terra. Esses segredos, claro, são para os de fora, que dentro de casa basta prestar atenção aos detalhes que uma parte saberá o que quiser e o que não quiser saber da outra. Jeitinhos e bardas falam por si.

Cada parte está exposta à outra de muitos modos, por muitas vezes, por muito tempo. A moral individual aberta é exposição plena. E mais do que a moral, de tanto se expor, expõe-se, também, a compostura dos modos. A correção de maneiras vai recebendo licenças até o completo vacilo.

Não demora muito e se abandonam as formas do corpo, o banho oportuno, a tampa do vaso sanitário, os gases, as vestes, o palavreado. Fica-se, e o que é pior, com toda a licença para ficar, em estado relaxado. Cada parte desavista o descuido da outra para poder também se descuidar.

Se não sustentamos os esforços de conteúdo e forma do princípio, tudo descamba em negligência com os códigos de gentileza exibidos em minúcias lá na primeira ocasião. Pense na bagunça pela casa, na louça acumulada, na toalha molhada, na voz histriônica ao telefone.

Exibir-se no melhor de si é coisa do namoro, uma estratégia de sedução. Realizado o encanto, desanda o amor-próprio; a vaidade desvia-se em desapreço esculachado. E não é por menosprezo ou desafeição; é por quedar-se desatento de cuidar e de cuidar-se. É desmazelo e só.

Não sou de conselhos, mas recomendei a uma amiga: viver com alguém? Mantenha o nível. Se desenhar expectativa alta, sustente a coexistência elevada. A vulgarização do comportamento no contubérnio devasta a sensação do belo, do amoroso, da graça de coexistir. Acaba o tesão.

Não há tesão que resista à estética do desapaixonado, inclusive por si próprio. Se o olhar-se no espelho já não acorda Narciso, não acorda mais nada. Ninguém se interessa pelo olhar do outro se não se interessa por olhar-se. Quero que o outro aprecie o que eu aprecio em mim.

Amigo meu segredou-me um causo de declínio de intimidade. Não era briga, o casal só não se curtia. Ele nem lavava o rosto; ela deixou de acarinhá-lo. Ela relaxou a aparência; ele largou de afagá-la. Já ninguém passeava a mão pelo corpo de ninguém. Morreu-lhes qualquer desejo.

Era triste: a coisa ia de ruim para pior. Perdurava o silêncio. Filmes e séries salvavam a situação. O problema, aliás, agravou-se exatamente por isso: as plataformas. Películas com rapazes bonitos e gestos carinhosos. E havia sexo. Ela, tocada pelas cenas, tomou-se de vontade de namorar.

A transa ia boa, mas, aí, o rosto dela: olhos fechados, sorriso gostoso que há tempos não era assim. Ele encheu-se de pensamentos. Não parou, mas não dava para não pensar: não era com ele. Ele a conhecia bem, sabia que aquele jeito entregue, sem pressa, não era transar com ele.

Para, não para, ele falou: abra os olhos. Ela desentendeu. Ele Repetiu. Ela olhou, mas não desmanchou o sorriso. Ele foi macho: ou transa comigo, ou não quero transar: tem que me ver, abra os olhos. Ela abriu, mas mirou o teto; estava claro que ali, mas longe dali, passeava com a imaginação.

Ele esforçou-se para marcar presença. Não era dedicação, era impor-se no território. Ela percebeu: sabia do corpo dele, mas também sabia que ninguém sabe das fantasias de cada qual; não cabe censurar imaginação. A transa chegou ao fim, mas esse fim foi a última vez.

(*) É Doutor em Direito pela UFSC, Psicanalista e Jornalista.

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