Dra. Jaqueline Pinto (*)
Existem múltiplos fatores que levam ao ciúme: a insegurança, o medo, a instabilidade, a desconfiança… a medida que o ciúme cresce, pior fica a manifestação por parte do ciumento, chegando a casos extremos de violência e até de morte. Dentro de uma faixa de normalidade, um ciúme eventual, que volta ao normal depois que a situação ameaçadora passa, é uma forma bastante comum. O que foge disso, já começa a entrar num comprometimento maior do ciúme, em um nível de transtorno emocional, na verdade num terreno patológico.
O ciúme tem motivações diferentes para homens e mulheres. O ciúme da mulher se volta mais à preocupação afetiva, pois, ela tem medo de perder o objeto de seu amor, daí a maior tolerância em aceitar a infidelidade conjugal. Já para o homem o ciúme tem um caráter mais de competitividade e de extrema intolerância. Mais do que perder a mulher, ele tem medo de perder o status, a posse, a honra. Teme ser passado para trás, ser traído. Isso tem ligação com o machismo e pressão social, itens que ajudam a impulsionar o ciúme masculino.
Para o ciumento, a relação afetiva é confundida com relação de necessidade em que se dá a posse recíproca do casal. Um passa a viver em função do outro, estabelecendo um vínculo simbiótico, de extrema dependência, do tipo “Eu não posso viver sem você, pois você é parte de mim”. Por não conseguir estabelecer um funcionamento psíquico adequado, um busca emprestado as funções psíquicas do outro, pois, sozinho sente que não consegue controlar e reter o outro sob o pretexto do ciúme e, portanto, do amor.
Essa relação de simbiose é muito complexa e torna as pessoas infelizes por também provocar a dependência do outro. Temos o que provoca o ciúme, como o que procura evitar. Essa relação de complementaridade traz sofrimento ao outro também, que se vê preso às necessidades do parceiro (a), às ameaças, falta de individualidade, de autonomia, de liberdade. As vítimas do ciúme demoram geralmente para percebê-lo e para reagir contra o mesmo, pois, são movidas pela ideia de que o ciúme é uma demonstração de amor. À medida que tomam consciência da situação podem superar esse sofrimento provocado pelo ciúme.
A pessoa ciumenta sofre muito e deve procurar ajuda para desenvolver melhor suas funções e capacidades, sua autoestima, resolver seus conflitos inconscientes e seus sentimentos para fugir de relações de extrema dependência e vivenciar relações mais saudáveis, com mais liberdade.
Quando há amor-próprio, em que ambos conseguem preservar a sua individualidade e caminharem juntos, encontrando um limite possível de segurança e convivência, certamente conseguem estabelecer uma relação mais saudável e feliz.
(*) É coordenadora do curso de pós-graduação em sexualidade da Famerp.