Jornal de Araraquara procurou Polícia Militar, GCM e Prefeitura, mas nenhuma das instituições confirmou o registro de ocorrências recentes; visita da reportagem encontrou túmulos com sinais de depredação
Luigi Polezze
O Cemitério São Bento voltou ao centro das atenções após o Jornal de Araraquara receber uma nova denúncia sobre possíveis furtos, invasões e depredações de túmulos no local. Diante da informação, a reportagem procurou a Polícia Militar, a Guarda Civil Municipal (GCM) e a Prefeitura de Araraquara em busca de registros ou confirmações sobre eventuais ocorrências recentes.
Nenhuma das três instituições, porém, confirmou à reportagem a existência de denúncia que pudesse comprovar uma nova onda de crimes no cemitério.
Reportagem encontrou sinais de depredação
Diante da ausência de confirmação oficial, a própria equipe do Jornal de Araraquara esteve no Cemitério São Bento para verificar as condições do local.
Durante a visita, foram encontrados túmulos e outras áreas com sinais de danos e depredação. Entretanto, não foi possível determinar com precisão quando os danos ocorreram. Assim, não há elementos suficientes para afirmar que todos os sinais encontrados sejam resultado de uma ação recente. Parte deles pode ser antiga e permanecer sem reparos até o momento.
A constatação, contudo, reacende uma questão que ultrapassa a existência ou não de uma ocorrência recente: como está sendo feita a segurança e a manutenção dos cemitérios municipais de Araraquara?
Fundo municipal previsto em lei
A discussão também envolve a legislação municipal. A Lei Complementar nº 971, de 2022, prevê a instituição do Fundo Municipal de Desenvolvimento de Serviços Funerários, além de um conselho destinado a acompanhar questões relacionadas à manutenção e aos investimentos necessários ao desempenho dos serviços funerários pela administração pública municipal.
A legislação estabelece que os integrantes do conselho não seriam remunerados, exercendo suas funções em benefício do município.
Por outro lado, a própria lei não estabelece, de maneira imediata e detalhada, quais seriam todas as obrigações financeiras do município relacionadas ao fundo, deixando determinados aspectos para regulamentação posterior.
Quatro anos após a aprovação da legislação, permanecem questionamentos sobre a efetiva aplicação desses mecanismos e sobre quais investimentos vêm sendo realizados na estrutura dos cemitérios municipais.
Manutenção, higiene e segurança
Os problemas apontados pela reportagem não se limitam à segurança. As condições observadas no Cemitério São Bento também levantam questionamentos relacionados à manutenção, higiene e conservação de estruturas e túmulos.
A preocupação se torna ainda maior diante da finalidade do espaço. Os cemitérios municipais são locais destinados ao sepultamento e à preservação da memória das famílias, o que exige do poder público condições adequadas de conservação, limpeza e segurança.
A questão central, portanto, é saber quanto é arrecadado com os serviços e taxas funerárias, como esses recursos são administrados e quanto efetivamente retorna para a manutenção e a segurança dos cemitérios municipais.
Não se trata apenas de cobrar pela utilização do serviço, mas de garantir que a estrutura necessária para sua prestação seja mantida em condições adequadas.
Cobrança de taxas também já foi questionada
A situação ganha outro elemento diante de uma denúncia apresentada em 2025 envolvendo a cobrança de taxas relacionadas aos cemitérios municipais.
Segundo a denúncia recebida à época, haveria diferenças na cobrança de taxas entre famílias que possuem entes sepultados tanto no Cemitério São Bento quanto no Cemitério dos Britos. A situação, caso confirmada, também precisaria ser esclarecida pelo poder público, principalmente quanto aos critérios utilizados para definir quem deve pagar e quais valores são cobrados.
O tema, portanto, envolve não apenas a conservação física dos cemitérios, mas também a transparência na administração dos recursos relacionados aos serviços funerários.
O que acontece com os recursos?
A ausência de confirmação de uma nova onda de furtos não elimina os problemas encontrados pela reportagem. Pelo contrário, reforça a necessidade de uma análise mais ampla sobre a situação dos cemitérios municipais.
Se existem recursos destinados aos serviços funerários, é necessário esclarecer como são aplicados, quais investimentos foram realizados nos últimos anos e quais medidas estão previstas para melhorar a segurança, a limpeza e a conservação dos espaços.
O Jornal de Araraquara entende que essas informações precisam ser apresentadas de forma transparente à população, especialmente às famílias que mantêm seus entes sepultados nos cemitérios municipais e que dependem do poder público para garantir a adequada preservação desses locais.
Enquanto não houver esclarecimentos oficiais e uma avaliação detalhada da estrutura, permanece a pergunta: quem está sendo responsável pela segurança e pela manutenção dos cemitérios de Araraquara e onde estão sendo aplicados os recursos destinados a esses serviços?