— BISSURDO! GRITOU EMÍLIA

Reginaldo Galli (*)

Na véspera, Tia Nastácia tivera de costurar, outra vez, os cantos da boca da Marquesa de Rabicó. Não sem aprontar aquela tromba e ralhar:

—Ói, si ocê, pestinha, inzagerá muito nas risada i arregaçá us ááá nunca vai entrá nas festa du céu. Vai ficá na sodade, viu, qui nem u sapu mais u jacaré. Já cansei di dá pontu nas ponta dêssis beiçu. Chega! Iscuitô bem?

Emília entendeu logo e passou a se cuidar. Parecia até uma francesinha dengosa, como essas do “oui, merci”, de biquinho bem empinado.

—Qual é o absurdo? indagou Dona Benta, olhos presos no jornal.

—O Coronêl Teodorico passou por aqui voando e mandou avisâr a Senhôra: estâ sendo prometida uma grande grêve nacionâl. Sâbe por quê ?

—Pois diga.

—Porque dizem que o Governo quêr tirâr dos que ganham mâis prâ distribuir aos pôbres. Eu âcho justo. Justissí – ssi – mo – mo !

—Raposas e abutres sempre os houve e, infelizmente, haverá. Claro que não podemos tolerá-los ! Mas penso que não é bem por aí que se implanta a justiça social. Se fosse, estaríamos no tempo da pedra lascada. Homem algum faria esforços para destacar-se, progredir, inventar, acumular os conhecimentos que, geração após geração, seriam lenta e sucessivamente aperfeiçoados, com a dificuldade e a constância de sólidos estudos e pesquisas. Valorizar adequadamente o trabalho, a dedicação e o mérito é condição, é matriz do progresso. Já os abusos cometidos por espertalhões e inescrupulosos são uma desfeita aos humildes e à moral pública. Mesmo legais, pecam pela torpeza. Que dizer dos desvios de recursos dos fundos de pensão? Ouça o que escreve hoje, no Correio do Vale, o professor Reginaldo, estudioso do nosso vernáculo, diretor do Instituto de Educação e advogado administrativista. Ele inicia lembrando famosa fábula de La Fontaine, imortal literato francês:

“Um gato de nome Faro-Fino deu de fazer tal destroço na rataria duma casa velha que os sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome. Tornando-se muito sério o caso, decidiram reunir-se para o estudo da questão. Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava namorando pelos telhados.

—Acho, disse um deles, que o meio de nos defendermos é lhe atarmos um guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos ao fresco a tempo.

Palmas e bravos saudaram a luminosa idéia. O projeto foi aprovado com delírio. Só votou não um rato casmurro. Pediu a palavra:

—Tudo certo, mas quem vai amarrar o guizo no gato?

Silêncio geral. Um desculpou-se por não saber dar nó. Outro, porque não era tolo. Todos, porque não tinham coragem. E a assembléia dissolveu-se no meio de geral consternação.”

—Prossegue o professor:

“Haverá quem coloque o guizo no pescoção do Congresso Nacional ? Neste que, dos três poderes é, sem dúvida, o mais manhoso, o mais fisiologicamente felino ? Com suas artimanhas, botes certeiros nos cargos públicos, ronronar doce pelos cantinhos e salões sombrios, é ele que sustenta ou não o Executivo, dependendo das prebendas e vantagens, do leitinho no pires, dos cafunés no lustroso pêlo da barriga macia… Foi o Congresso Nacional que, apesar de todas as dificuldades proclamadas pelo Governo como “herança maldita”, ousou inaugurar a presente legislatura aumentando os próprios vencimentos para R$ 12700,00 e a verba de gabinete de R$ 25000,00 para R$ 35000,00. O salário dos funcionários da Câmara elevou-se em 20,7%, comparando-se maio de 2002 a abril de 2003. Que sinceridade pode haver em uma “Reforma Previdenciária” que não atingirá essa gente ? Prometo, num próximo artigo, aduzir outros números e argumentos para evidenciar que, fingindo estigmatizar abusos e distorções, essa “moralização” é puro engodo. Reestruturação para valer, ninguém a deseja. Os “agentes políticos” conservarão os privilégios de aposentar-se após quatro anos e acumular várias aposentadorias. Tudo legal, amparado na lei… que eles fizeram…”

— E então, Emília, viu como é bom ouvir todos os lados ?

—Dona Benta do cêu! Quando a Senhôra for â cidâde, me lêve junto. Quêro abraçâr o professor Reginâldo e dâr um beijinho nele. Parêce que os verdadeiros donos do bissurdo estão mostrando o rabinho da lagartixa prâ fingir que ê dedinho mâgro… Nêssa garrâfa tem saci…

—Levo sim. Também quero conhecer esse experiente educador que tem como princípio, ao que julgo, preparar não apenas para a escola, mas principalmente para a vida. Como os meus venerados mestres…

Alteando de chofre o jornal, tentou inibir uma lágrima e sorveu, em suspiro profundo, o matiz claro-escuro de uma juventude que entardecia.

(*) r.galli@uol.com.br

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