Ainda, o “Efeito Lula”

Antonio Delfim Netto (*)

Não são nada sérias as “análises” publicadas na imprensa relacionando o aumento do “risco Brasil” com o crescimento da candidatura Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência. Sem o menor esforço crítico, deu-se credibilidade à avaliação de bancos e agências internacionais rebaixando a classificação do Brasil e aconselhando seus investidores a substituírem papéis brasileiros por aplicações “mais seguras” em outros mercados emergentes. A razão apontada? O risco da vitória do candidato da oposição nas eleições presidenciais, ou seja o “efeito Lula”…

Ninguém se lembrou de examinar o que estava acontecendo com a classificação de risco dos demais países ôemergentes”. Pois se tivessem tido esse elementar cuidado, teriam verificado que não foi apenas o ôrisco Brasilõ que estava sendo reavaliado para pior: do dia 4 de abril ao dia 2 de maio, o ôspreadõ dos títulos brasileiros subiu mais de 15% (de 751 pontos para 861); no mesmo período o risco dos papeis chilenos aumentou igualmente mais de 15% (passou de 121 para 139) e dos mexicanos outro tanto (de 201 para 252 pontos). Alguém se deu conta que não existe o ôefeito Lulaõ nesses países? Ou Lula teria uma influência tão devastadora no comportamento dos mercados, a ponto de aumentar o risco mundial? A realidade é que nossos “analistas” não tiveram a curiosidade de consultar as estatísticas e se deixaram influenciar pelas conveniências do processo eleitoral. Isso é tão real quanto o fato que, até duas semanas atrás, as agências faziam abertamente a campanha do candidato oficial, quando ainda consideravam viável a sua eleição. Os bancos podem aconselhar seus clientes a tomarem o caminho que acharem mais interessante. Essas mudanças de posição habitualmente produzem alguma volatilidade que ajuda a aumentar os lucros da intermediação.

Nem por isso podemos ignorar o que acontece com os indicadores na economia real. Eles revelam que o crescimento brasileiro está mais lento, que nossa economia está murchando. Mesmo o saldo do comércio exterior comemorado pelo governo (1,5 bilhões de dólares) não indica melhoria. Paradoxalmente, ele revela a fraqueza da economia brasileira, porque foi construído com uma queda de 11% nas exportações e de 21% nas importações. Não é por outro motivo que o IPEA rebaixou a previsão de crescimento de 2,5% para 2% do PIB em 2002. Esses indicadores é que fazem variar o risco Brasil. Não tem nada a ver com o tal “efeito Lula”, até porque ele não terá muitos graus de liberdade para mexer na política. Curiosamente, quem se dispõe a alterá-la profundamente é o senador Serra (que não faz segredo disso) e como o próprio ministro Malan tem reconhecido ao afirmar que não vê afinidades eletivas do candidato oficial com a política econômica do governo …

Com a habitual sagacidade, o jornalista Clóvis Rossi encontrou resposta à pergunta “porque o mercado se agita quando Serra tem dificuldades?” Segundo ele (Folha de SP-09.05.02) “ao contrário do que diz Delfim, o mercado não está mal informado sobre Serra. Apenas aposta no instinto de preservação de seus companheiros de viagem”.

E_mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br

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