Edinho, como presidente do Diretório Estadual, fala sobre a situação da ex-ministra Marta Suplicy; biodiesel brasileiro não é fruto de trabalho escravo e a empresa araraquarense do segmento; trabalhadores que cortam cana poderão ser os futuros donos de bolsa-família; pessoal da Santa Casa saiu do gabinete com um sorriso de orelha a orelha; De Santi pode ser candidato a prefeito e Edna não terá Lula em seu palanque. São os temas dessa reportagem com o prefeito Edinho Silva. Leia, pense e passe adiante.
Jornal de Araraquara – Sobre as eleições na capital do Estado, o presidente Lula trabalha pela retirada da candidatura de Aldo Rebelo. Considerando que o atual prefeito Gilberto Kassab e o ex-governador, Geraldo Alckmin, dividem o mesmo eleitorado, é possível considerar que Marta já é prefeita de São Paulo?
Edinho Silva – Não, de forma alguma. Penso que é uma eleição extremamente difícil, que vai exigir muito do PT e dos seus aliados. O Alckmin é um candidato fortíssimo. Foi candidato à Presidência da República e governador de Estado. O Kassab, na minha avaliação, tem o apoio de duas máquinas extremamente poderosas: a Prefeitura de São Paulo e a máquina também do Governo do Estado de São Paulo. A Marta tem chance, é viável e as pesquisas estão mostrando isso. A população sente saudade de seu governo, mas, é uma eleição muito difícil.
J.A. – O jornal Los Angeles Times diz que o biodiesel, originado pela cana-de-açúcar do Brasil, é processado com trabalho escravo.
Edinho – Isso não é verdadeiro. Cada vez que o Brasil alcança o mercado internacional há mobilização contra esse produto. Foi assim com o suco de laranja. Nós tínhamos problemas na colheita da laranja, verdade, mas afirmaram internacionalmente que toda laranja colhida no Brasil era com mão-de-obra infantil. Isso também não era verdade. No Brasil, dizer que existe mão-de-obra escrava hoje no corte de cana só se for uma coisa pontual, muito fora do eixo São Paulo – Minas Gerais. Da mesma forma, há países desenvolvidos com problemas graves na área ambiental, agora não dá para dizer que todos os produtores norte-americanos são descomprometidos com o meio ambiente. Assim como não dá para dizer que todos os empregadores brasileiros desrespeitam a legislação trabalhista. Isso não é verdade. Eu penso que é muito mais uma campanha que não vai ter força, articulada para macular o etanol como uma alternativa energética extremamente viável e que coloca o Brasil num outro patamar na disputa da matriz energética do século XXI.
J.A. – Agora, temos as máquinas colheitadeiras que subtraem mão-de-obra de 60 trabalhadores. Esses cortadores de cana de hoje serão os titulares do Bolsa Família de amanhã?
Edinho – Se o Poder Público tomar as medidas necessárias, não. Agora, o corte de cana manual é uma atividade desumana. Quem corta cana todos os dias sabe o nível de desgaste que se tem. Com a mecanização, o Poder Público tem que oferecer alternativas a esses trabalhadores, tem que investir em capacitação de mão-de-obra e cursos que dêem possibilidade de futuro aos filhos dos cortadores de cana. Essa mão-de-obra que for excluída do mercado de trabalho tem que ser ocupada em outros setores da economia. Essa semana, inclusive, o programa Frentes da Cidadania da Prefeitura de Araraquara foi copiado pelo Governo do Estado. O projeto das Frentes de Trabalho do Estado é muito parecido. Aqui em Araraquara o trabalhador trabalha quatro dias e, no quinto dia, recebe qualificação profissional. Então você combate o desemprego e requalifica esse trabalhador para retornar ao mercado de trabalho. Isso tem que ser feito em toda a região onde a mecanização de cana acontecer. Temos que romper com o processo de exclusão.
J.A. – Toda região espera a empresa que vai transformar as oleaginosas, resto de óleo queimado, óleo de cozinha em biodiesel. Com a instalação da empresa em Araraquara, qual é a perspectiva de início desse trabalho e de aumento da renda familiar para Américo Brasiliense, Santa Lúcia e outras cidades da região?
Edinho – A terraplanagem já começou e as obras da Biopetro tiveram início aqui em Araraquara. Eu estou otimista. Trabalhamos muito para que tivéssemos uma empresa voltada ao biodiesel. Ela cria uma alternativa de renda aos pequenos produtores. Além disso, o modelo que está sendo desenvolvido em Araraquara vai inclusive retirar o óleo para o biodiesel de algas e reutilizar o óleo de cozinha. Efetivamente, é uma empresa que pode gerar emprego e uma alternativa energética para a nossa região e para o Brasil. Ela vai criar uma nova perspectiva econômica para a região, principalmente pequenos produtores e aqueles que trabalham no processo de reciclagem.
J.A. – As ONGs recebem R$ 33,9 milhões e a região acaba ficando na mira do Tribunal de Contas do Estado. São Carlos com 141 ONGs, Franca 116, Barretos 78, Ribeirão Preto 73 e Araraquara 27. Enquanto em Ribeirão Preto as ONGs ganharam R$ 7,3 milhões, em Araraquara foram R$ 2,3 milhões com dinheiro passado através da Prefeitura. As ONGs de Araraquara são idôneas, certo prefeito?
Edinho – Tem que abrir esse número. Araraquara tem os convênios todos aprovados pela Câmara. Eu acredito que boa parte disso, que estão chamando de ONG, são subvenções que a Prefeitura faz para entidades filantrópicas. Com certeza aparece aí a Udefa, a Santa Casa, o Hospital Caibar Schutel, o Asilo, as entidades filantrópicas de uma forma geral. Nós não temos um perfil de trabalho com ONGs.
J.A. – Os diretores da Santa Casa, médicos Othon Amaral e Valter Cury, juntamente com o Agostini, saíram contentes do seu gabinete. Eles conseguiram mais dinheiro?
Edinho – Tivemos uma reunião de trabalho para discutir toda a estrutura de atendimento da saúde de Araraquara e a Santa Casa é o grande prestador de serviço do SUS, tanto do município como da região. Nós aproveitamos para dar a eles uma notícia, a de que passou por todos os comitês de aprovação no BNDES a liberação de R$ 6,5 milhões para o hospital. Espero que nos próximos dias o dinheiro já esteja na conta da Santa Casa de Misericórdia de Araraquara.
J.A. – Na sua visão eleitoral, Araraquara está normal, tudo certinho?
Edinho – A próxima semana, tenho certeza que vai mostrar isso. As coisas estão se afunilando. Não tem mais muito para onde se criar especulação ou fato novo. Nós estamos às vésperas do prazo final das convenções e com certeza o quadro deve ficar mais claro, mais transparente. Aí é apresentar proposta, o projeto, e convencer o eleitorado num jogo democrático.
J.A. – O sr. que respira política há muito tempo, até como sociólogo, qual a leitura sobre De Santi: prefeito três vezes, 21 anos e um mês como vereador e, depois de 8 anos ausente, fora do poder político da cidade, ainda consegue segurar todos os candidatos e ninguém decide nada enquanto ele não der a palavra final.
Edinho – É a força política de uma liderança que se construiu. Na minha opinião, trata-se da maior liderança política da segunda metade do século XX em Araraquara. Primeiro pela sua origem, pela forma como ele surgiu na política local. Na verdade, ele foi uma ruptura de um ciclo de prefeitos que se elegiam com alianças estreitas, com as chamadas famílias tradicionais. Ele entra como um vereador de oposição, de origem popular, crescido naquilo que era chamado periferia de Araraquara. Ele rompe um ciclo e com isso abre uma nova fase na política do município. Evidente que alguém que tenha essa história, que participou da constituição política das últimas décadas em Araraquara, tem lastro social, tem força política, tem capacidade de definir o quadro político local. Como ele próprio disse, vereador por 21 anos e prefeito por três mandatos, naturalmente teve a oportunidade de construir elos extremamente fortes na sociedade local, tem raízes nessa sociedade. Hoje, o prestígio que o De Santi goza é conseqüência de todo o investimento que ele fez enquanto figura pública na política local, de tudo aquilo que ele construiu socialmente durante todas essas décadas. É natural que ele ainda seja um elemento determinante na conjuntura política nessa primeira década do século XXI.
J.A. – Seu feeling diz o que? O De Santi vai ser candidato? Ou na última hora vai rejeitar a candidatura?
Edinho – De Santi tem o perfil de uma liderança política que não tem partido, não tem direção partidária, não tem aquela concepção de que o coletivo é que determina o rumo e os caminhos do projeto. O De Santi é aquele político que ainda vem da tradição janista, do político que se sustenta pela sua própria personalidade. Então, qualquer opinião que for emitida não passa de palpite. Evidente que quanto mais o processo avança ele não se posiciona porque, assim, ele mantém o PTB nesse compasso de espera, mantém os partidos menores nesse compasso de espera. Cada vez mais ele se compromete enquanto candidato, porque dá pouco tempo para esses partidos darem o cavalo de pau na política, que é buscar outro rumo e outro caminho. A lógica é: quanto mais tempo demora sem que ele libere seus aliados para outros movimentos, a tendência é que cada vez mais ele se caracteriza como candidato. Entretanto, como é momento político firmado na força, na personalidade e na figura de um único sujeito, ele pode também dizer que não é candidato. Eu penso que ainda é um imponderável.
J.A. – Com eleição pela frente, administrar a cidade e estar presidente do Diretório Estadual… dá para conciliar tudo isso?
Edinho – Meus finais de semana estão extremamente corridos, mas está dando para conciliar. Eu peguei os finais de semana de meados de abril para cá e fiz dezessete Encontros Regionais no Estado de São Paulo. Eu praticamente, aos finais de semana, conversei com o PT no Estado todo. Minha tarefa, aquela que exigia mais a minha presença, está praticamente cumprida. Evidente que eu ainda tenho que participar, aos finais de semana, de alguns lançamentos e algumas convenções em cidades importantes, mas está dando para conciliar. Sacrifica um pouco os finais de semana, o tempo do descanso, o espaço da família e do lazer, mas, acredito que para a cidade de Araraquara isso tem sido importante porque tem criado um espaço de interlocução privilegiado com as lideranças do Estado de São Paulo e do Brasil. Tive a oportunidade, na terça-feira retrasada em Campinas, de estar com o Presidente Lula e conversar durante um bom tempo. O Presidente chamou o Ministro da Saúde e pediu sua atenção às pautas de Araraquara. E claro que se eu não fosse o Presidente do PT eu não teria esse espaço.
J.A. – Se é verdadeiro que a Marta acaba ganhando um presente eleitoral, a possibilidade de ter Lula no palanque, é também verdadeiro que aqui em Araraquara o Lula não vai subir em palanque nenhum porque teria dois elementos da base: o Marcelo Barbieri e a Edna Martins.
Edinho – O presidente deve ter agenda agora no período eleitoral para algumas capitais. Ele não vai conseguir correr todas as cidades do Brasil, mas, o Presidente já esteve em Araraquara. No mês de março deu ordem de serviço para uma obra importantíssima que é o novo contorno ferroviário. Teve a oportunidade de mostrar o seu respeito à Edna, de mostrar todo o carinho que ele tem pela cidade. O presidente Lula esteve com a Edna enquanto Presidente da Câmara e demonstrou publicamente muito respeito por ela. Eu penso que ele cumpriu seu papel em Araraquara e seria falsa ilusão esperar do Presidente outro gesto.
J.A. – O que motiva esse procedimento é a consistência partidária, a base partidária de Brasília. O eleitor pode questionar o fato de o Marcelo Barbieri ser do PMDB, portanto da base do governo federal, mas, que em São Paulo, por decisão de seu presidente Orestes Quércia, está agora com o governador José Serra e o Gilberto Kassab.
Edinho – O Presidente Lula tem dito que vai evitar participar em campanhas que tenham dois candidatos ligados à base de sustentação do Governo em Brasília. Esse é o esforço que ele vai fazer, mas eu acredito que em alguns municípios, em alguns momentos, mesmo tendo um único candidato da base, ele não vai conseguir estar na campanha. O que ele vai evitar é constrangimento político, colocar em risco seu governo quando em uma capital você tem dois candidatos extremamente ligados à base. Acho que ele está correto e a prioridade do Governo Lula é governar o Brasil, é fazer o país continuar nesse caminho do desenvolvimento, do crescimento, da geração de empregos que todos nós estamos testemunhando. (Da redação do J.A.)