A despedida de quem não quer se despedir

Chamado, ele levantou-se lentamente e foi ao microfone. Declarou o que não precisava ser dito, estava visivelmente emocionado. Era um momento difícil como qualquer despedida. Naquele espaço ele havia contribuído anos a fio para a universidade. Ali se tornara mais conhecido, respeitado, força imbatível na busca do que acreditava como sendo verdade e justiça para o bem comum. Agora tinha que se retirar compulsoriamente, devido à aposentadoria expulsória, segundo ele. Era este o motivo da emoção que o levava às lágrimas (tristeza que, aliás, virou fumaça minutos depois quando defendeu veementemente uma posição pessoal diante de um grave problema de segurança no campus, com um brilho nos olhos e uma firmeza de voz de meter inveja nos mais jovens).

Força, conhecimento, experiência e vontade de continuar trabalhando, sabe que tem, assim como todos sabem. Por que sair, então? Porque a lei assim o determina, contra a sua vontade, contra a vontade de muitos que o cercam, contra tudo e contra todos. Em se tratando de professores universitários, uma lei retrógrada, discriminatória e injusta, do tempo em que aos 70 anos as pessoas eram tidas como inservíveis, descartáveis, aptas somente para ocupar o pijama.

Na mesma sessão do órgão máximo da universidade em que o Professor se despediu, outros septuagenários, aposentados à revelia, mostraram que continuam participando intensamente da vida universitária, colocando sabedoria e experiência de uma vida toda a serviço da elevação da qualidade do ensino público, a despeito da incômoda condição de “inativos”.

Para nós, que ficamos e (felizmente) continuamos a conviver com eles, nada muda. Pelo contrário, aumenta a cada dia o respeito pela dedicação de quem já poderia estar comodamente “descansando” e continua querendo e gostando de pegar no pesado. São anos e anos a mais de trabalho gratuito para a universidade e para a sociedade. Trabalho significativo, valoroso, no que tange à atuação como docentes, pesquisadores ou dirigentes, eternos mestres na difícil tarefa de mudar o mundo com sabedoria e persistência.

Incansáveis, nunca dizem “não, não posso, não quero, não vai dar…” quando se trata de trabalho. Sempre prontos para a luta, tomam providências quase imediatas para a solução dos problemas, independente da dificuldade a ser enfrentada, se acadêmica ou administrativa. Alguns são ou se tornam polêmicos, nem sempre compreendidos pelas gerações mais novas, mas também assim, não desistem. Teimosia, persistência, modo diferente de enxergar o mundo, saudosismo? Difícil dizer. O que não pode ser negada é a determinação, a disposição e a coragem com que continuam a labuta. Até mesmo para ir contra a maioria. Invejável, poder-se-ia dizer da sua forma. Louvável, a sua dedicação a um ideal de universidade e de mundo.

Obrigada por tudo, senhoras e senhores. A comunidade agradece. Quanto à expulsória, mais que lamentar é continuar a luta pela mudança na lei. Até lá, que tal comemorar com muita alegria os 70 anos e todos os demais que se seguem? Afinal, muitos gostariam de ser como vocês quando crescessem…

Rosa Godoy (docente da Universidade de São Paulo)

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