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A Cultura em Diálogo

Só por hoje, terei o máximo cuidado com o meu modo de tratar os outros. Não pretenderei melhorar ou disciplinar ninguém, senão a mim mesmo.

Bom dia. Diz o velho ditado: "Cada macaco no seu galho".

Quando o seu carro quebra, você não procura um mecânico? Quando está com dor de dente, não é o dentista que procura? E assim você faz todas as vezes que precisa de um vidraceiro, funileiro, médico, engenheiro, advogado, arquiteto, massagista, fisioterapeuta…

Você procura cada um desses profissionais… cada um entende de sua especialidade. Assim deve ser feito, quando o seu texto, jornalístico, publicitário ou mesmo uma crônica, for escrito. Está com dúvidas? Acha que tem alguma inadequação? Está misturando as idéias e as palavras? PROCURE UM ESPECIALISTA EM PORTUGUÊS. Não dói nada! Você, locutor ou apresentador de Rádio ou TV, tem alguma dificuldade ao se expressar, engole ou troca palavras, faz construções inadequadas…. PROCURE UM ESPECIALISTA EM PORTUGUÊS. Você verá que benefício essa consulta lhe trará.

E então chegamos à última parte da matéria que trata, de maneira crítica, a forma como agem nossos jornalistas, na mídia brasileira.

Eis as últimas "pérolas". Obrigada mais uma vez ao amigo jornalista (esse é dos bons), Edílson Fragalle.

** Existem momentos que nós precisamos de mais uma oportunidade. O locutor, ignorante, não tem condição de consertar o péssimo texto do ignorante redator. (Chamada do Warner Channel)

** Por se tratar de um meio que convivo diariamente e tenho muito amor. Nunca ouviu falar de no qual e pelo qual. (Texto de um jornalista)

** O jogo que reuniu os dois jogadores melhores ranqueados entre os participantes (…) O autor não põe vírgulas separando o aposto, emprega melhores no lugar de mais bem – também nunca ouviu falar da regra – e usa sem-cerimônia um verbo não incluído em dicionário. Tudo bem, a língua é viva! (Folha Online)

** Vamos mostrar o que acontece por trás dos bastidores de Harry Potter e a pedra filosofal. O que mais pode haver por trás dos bastidores do filme? Só os esgotos e a “casa dos artistas”… (Canal USA)

** “Quando toda a honra e a dignidade de uma nação repousa em chuteiras, meus amigos, melhor estar onde repousa o Saldanha…” Será que concordância também é questão de liberdade da língua? (Jornal do Brasil)

Não falta apenas conhecimento da língua, mas cultura, e da mais simples. Para ilustrar: a TV exibiu no outro dia um costureiro explicando com muitas palavras e muitos gestos, como se fosse algo novo, difícil de entender, o que é o corte enviesado. Ignorava completamente, e a repórter idem, pois não interferiu, a velhíssima palavra evasé, de origem francesa e usadíssima nos anos 60 e 70. Imaginem a dificuldade para explicar isso sem recorrer a “corte enviesado” ou “evasé”! Se um repórter não consegue contextualizar o evasé, o que dizer de todos os fenômenos filosóficos, sociológicos, políticos e econômicos de nossa complexa sociedade?

A atual geração de jornalistas é diplomada, mestrada, doutorada, preparada, fala línguas, domina a tecnologia, tem tudo para trabalhar direito. O que falta então? Os especialistas podem pesquisar, virar o problema do avesso, mas não adianta: o que falta é leitura. A maioria dos jovens jornalistas nasceu ontem e acha que seu ontem é o passado mais remoto que existe.

O ponto de esgarçamento.

De quem é a culpa concreta dessa catástrofe? Primeiro, da família. Pais e mães não lêem mais, e a criança, que segue exemplos, não lê também. Segundo, da escola, de todos os níveis, cujos professores, humilhados e desmotivados, mal se sustentam em pé diante da classe. Terceiro, do governo, que nada faz para devolver à escola aquele eterno fazer febril que, nos anos 50 e 60, estava nos transformando em nação. Quarto, da população, especialmente a classe média, que determina o padrão dos serviços: trocou a escola pública pela particular (fez o mesmo com saúde e segurança), caiu na teia do lucro capitalista e vive uma angustiante busca de uma escola melhor, que é sempre mais cara, mais fria. Quinto, da TV, que brutaliza, inibe a imaginação e a fantasia que só o livro é capaz de adubar. Sexto, da imprensa. Todos os jornais são culpados, porque expulsam cada vez mais das redações a figura do redator – não há mais quem mostre ao jovem repórter os erros de seu texto. Os editores mal têm tempo de baixar suas páginas na hora, quanto mais pôr um repórter do lado para falar de matéria. E são culpados especialmente alguns jornais. No tempo em que o Correio da Manhã e depois o Jornal do Brasil eram os jornais-modelo, o texto jornalístico era primoroso. Bem, pode-se dizer o mesmo da família, da escola, da classe média, do governo…

Hoje, os manuais de redação é que orientam a juventude. São até razoáveis: tentam ensinar as regras básicas da língua, condenam os clichês, mostram o caminho da escrita clara e eficiente. Tirando o da Folha. O manual de redação da Folha produziu uma regra desastrosa, mais ou menos assim: cada parágrafo deve ter no máximo três linhas, contendo no máximo duas sentenças, com no máximo dois conceitos. Por considerar o leitor burro, o manual da Folha emburreceu seus repórteres. E, como atualmente os jovens jornalistas do país têm na Folha seu jornal-modelo, todo mundo emburreceu junto. Hoje a Folha nem é assim tão rígida, mas o mal está feito. Os defensores da mobilidade do português precisam estabelecer pelo menos um limite para o esgarçamento da língua, não importa se a popular ou a culta – as duas caminham juntas. Lembro que, nos anos 70, uma novela da Globo causou furor nos jornais e nas conversas de rua porque o ator Tarcísio Meira disse num diálogo “entre eu e você”, e não “entre mim e você”! Hoje, os erros cometidos nos telejornais são muitíssimo mais graves. Até que ponto podemos chegar? É bom saber, porque se formos muito longe, pode não haver mais língua alguma.

Espero que essas três semanas dedicadas a um assunto tão sério, como o bom e adequado uso de nossa Língua Portuguesa, tenha sido proveitoso para todos.

"Os rios mais profundos correm com menor barulho".

Dê sua opinião, faça seu comentário -celp@terra.com.br

Até a próxima semana.

Profª Teresinha Bellote Chaman

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