N/A

A Cultura em Diálogo

“O certo é que a literatura é a esperança da comunicação, para a qual é necessário que se eduquem não só os futuros jornalistas, mas os leitores. Através da literatura, o homem exerce a sua singularidade, de forma universal”.

(Florence Dravet – Doutora em Ciências da Linguagem pela Universidade de Paris).

Prosseguimento ao tema iniciado na edição anterior – Discurso literário e discurso jornalístico: convergências e divergências.

(Manuel Angel Vázquez Medel).

“As relações entre jornalismo e literatura são múltiplas e extraordinariamente variadas. Não se trata apenas de que, em um e outro caso, o instrumento fundamental – a palavra e suas estratégias discursivas verbais – seja comum. No processo de desenvolvimento histórico e de institucionalização de ambas séries discursivas encontram-se coincidências muito interessantes e interações mútuas. Resulta inegável a influência de pautas de escritura e modelos literários para a construção de determinados discursos jornalísticos, não é de menor importância a presença do jornalismo (com seus temas, recursos, procedimentos e técnicas) na criação literária (especialmente no século XX), sem esquecer o fato de que as figuras do escritor e do jornalista (sobretudo de opinião) às vezes coincidem com a mesma pessoa. O chamado “articulismo criativo” (elaboração de artigos criativos), assim como outras formas desenvolvidas na segunda metade do século XX, no marco dos “novos jornalismos” estabelecem um interessante território intermediário.

Em ajustada síntese, Francisco Gutiérrez Carbajo (1999:23) indica: 'A relação entre literatura e jornalismo conhece um primeiro momento de esplendor com a aparição das revistas culturais do século XVIII, estreita-se ao longo do século XIX e constitui um dos capítulos fundamentais da cultura do século XX’. Com efeito, desde o romanticismo, jornalismo e literatura têm andado sempre de mãos dadas. Começa a ser comum afirmar que em alguns artigos, reportagens ou crônicas publicadas na imprensa, encontra-se a melhor prosa atual. Tampouco pode negar-se que em poucos momentos da história os escritores têm tido uma presença tão importante na imprensa como nestes últimos anos. Quiçá isso seja devido ao papel desempenhado pelos suplementos culturais, ao auge do “articulismo” literário, à recuperada presença do conto e à publicação na imprensa, por entrega, de obras de ficção. Por tudo isso, não parece arriscado demais pensar na influência que o jornalismo e a aplicação das novas tecnologias têm hoje nos gêneros narrativos.

Jornalismo e literatura são práticas discursivas verbais que mantêm um falso contencioso baseado no prestígio de uma ou outra atividade que, apesar dos elementos comuns, mantêm técnicas diferenciadas. Assim, desde a perspectiva de um jornalismo restritivo, os 'literatos’ que irrompem com sua atividade no âmbito jornalístico são 'intrusos’, em todo caso tolerados na sua dimensão interpretativa, porém, que pouco ou nada têm a ver – a juízo dos jornalistas tecnocratas – com o jornalismo informativo. Desde a ótica dos criadores literários 'elitistas’, o jornalismo não chegará nunca a ser uma praxe criativa literária, ou o será só de maneira secundária ou subsidiária. Héctor Anaya recordava, inclusive, tradições comprometidas ideológica ou politicamente, mas que se nega aos jornalistas esta dignidade que se reserva para a literatura: Não são poucos os literatos e ensaístas – afortunadamente cada vez menos – que não querem conceder ao jornalismo a categoria de literatura. Uma velha discussão, não resolvida totalmente, considera que o jornalismo não cumpre os requisitos que poderiam colocá-lo ao lado da literatura. Leon Trotsky, certamente sem muitos méritos de autor literário, tentou desacreditar o jornalismo chamando-o de maneira classista 'musa plebéia’ e a essa linha trotsquista, talvez sem sabê-lo, filiou-se o poeta e jornalista Renato Leduc, que também denegriu o ofício jornalístico: 'Eu não saberia qualificar ou classificar o jornalismo escrito como pseudo-literatura ou como subliteratura, porém, em todo caso, não me atrevo a qualificá-lo de literatura’. Segundo ele, outro poeta e ensaísta, Salvador Novo, haveria dito que 'não se pode alternar o santo ministério da maternidade que é a literatura com o exercício da prostituição que é o jornalismo’.

Os processos de transformação da atividade jornalística e da criação literária têm seguido cursos paralelos, não sem importantes pontos de encontro e territórios compartidos. A imprensa, nascida com uma importante função social de testemunho do fato social e controle das três grandes esferas do poder do Estado moderno (Executivo, Legislativo e Judiciário), chegou a converter-se, não no quarto poder do Estado, senão no primeiro, em um novo marco que contempla, com preocupação, a transgressão do princípio democrático do controle, que deve exercer-se sobre toda forma de poder e, especialmente, sobre o poder comunicacional, sem que isso possa nem deva confundir-se com nenhuma forma de censura. Com efeito, a criação literária, fixada exemplarmente no marco da modernidade como a conquista de um novo espaço onde se estende essa linha na qual a linguagem converte-se em obra, enfrenta uma crise sem precedentes, ao questionar-se o próprio fundamento sobre o que tem se construído durante quase três séculos”.

Na próxima semana daremos continuidade a esse magnífico ensaio. Não percam.

“Os jornalistas, como os escritores, precisam ouvir, ler e escrever, compreender e interpretar, exercer sua sensibilidade, saber e conhecer através dos escritos e ditos dos outros. Mas precisam sobretudo dar nova vida ao leitor que está morrendo”.

(Florence Dravet)

Participe, dê sua opinião – celp@terra.com.br

Até à próxima semana.

Profª Teresinha Bellote Chaman

Compartilhe :

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Agenda Esportiva

Audiência Pública debaterá regra sobre ano de fabricação de carros de aplicativo

Show nesta sexta-feira no Sesc Araraquara

Espetáculo de teatro neste sábado no Sesc Araraquara

Show neste domingo no Sesc Araraquara

CATEGORIAS