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A carta do tio Firmino

João Baptista Galhardo

Se o velho pudesse e o jovem soubesse, não haveria o que não se fizesse. Os ingleses dizem que a mulher tem a idade que aparenta e o homem a que sente. Na realidade o homem tem a idade do seu sorriso e a bondade do seu coração. Todos querem viver muito, mas temem a velhice. A pior doença que envelhece a pessoa de qualquer idade é a esclerose moral. Quando adolescente, freqüentando o curso Científico e estudando espanhol, (uma das matérias e, ainda, em razão da minha descendência) tive a curiosidade de ler as cartas que meu pai recebia do tio (dele) Firmino, morador de Lorca, província de Múrcia, Espanha. Elas estavam guardadas numa lata retangular do antigo biscoito Aymoré, que tinha uma cabeça de índio decalcada na tampa. Li todas em ordem cronológica crescente. Nas primeiras o Tio Firmino falava da sua prosperidade como comerciante no ramo de mármore e granito, que comprava, serrava, lapidava e vendia para a redondeza, principalmente para Múrcia, Elche, Alicante, Valência e para a própria Lorca. Demonstrava sua felicidade com a esposa Isabel e seus dois filhos, sempre brilhantes nos cursos que faziam. Nas posteriores narrava o casamento deles, aos quais passara todos os seus bens, inclusive a empresa. Dizia que queria viver tanqüilo com sua Isabel na casa de muitos cômodos em Lorca. Na última carta, espaçados alguns anos da penúltima, dizia Firmino: Paco: Você nem imagina de onde estou escrevendo. Minha querida Isabel morreu. Ficou internada por muito tempo em hospital especializado. E sua doença além de levá-la, deixou-me na maior pobreza. Meus bens já havia transferido, sem reserva, para os filhos, inclusive minha casa. A empresa que mantive próspera por mais de quarenta anos, meu filho Miguel levou-a à falência, tendo antes comprado a parte do irmão Antonio, que após o casamento foi morar bem longe, em Santander. Há anos não o vejo. Miguel veio morar na minha casa (que por doação já era dele), com sua mulher e dois filhos. Um dia levantei-me da mesa e minhas pernas não obedeceram meu comando. Fomos em três médicos, e o mesmo diagnóstico: velhice. Ossos descalcificados. Para a cura precisaria de um longo e custoso tratamento em clínica especializada. Mas com que dinheiro ? Os filhos por certo não disporiam de seus bens. Nem mesmo dos que lhes foram doados. Para caminhar de um lugar para outro precisava do apoio de alguém. Três meses foram suficientes para eles acharem que eu era um estorvo. Aí veio a idéia, deles é claro, de me internar num asilo “onde teria gente da minha idade para conversar”. Um dia, de surpresa, veio a ambulância. Colocaram-me numa maca, com uma pequena mala. Olhando pela janela notei tristeza apenas na Bilúia, minha cachorra de estimação, que latindo num adeus, acompanhou o veículo por longo trecho. Estou lhe escrevendo deste asilo. Não é possível que isto seja verdade. Devo estar no inferno. Na chegada puseram-me uma camisola branca, dessas de amarrar por trás. Na mala apenas uma foto de casamento e outra com a família. Não colocaram nem meus livros preferidos. Cada quarto “acomoda” quatro pessoas. Dizem que deve ter alguém para avisar a administração em caso de morte. Aqui só tem loucos e doentes. Eu não sou nenhum dos dois. Tenho apenas as pernas fracas. Faz um ano que ninguém me visita. Aqui todos vão para o quarto antes de escurecer. As janelas e portas são trancadas. Há muito tempo, não sei se lá fora é lua cheia ou lua nova. Sei que você não pode fazer nada por mim. Mas eu posso lhe aconselhar. Se amealhar alguma coisa não adiante doação aos descendentes. Eles aceitarão muito mais a partilha feita pela Justiça do que a divisão feita pelos pais. Não cometa o erro de só dar estudos aos filhos. O estudo não prepara para a vida. Faça com que estudem e trabalhem ao mesmo tempo. Caso contrário não saberão dar valor ao que receberem dos pais. Venderão por nada. Talvez até no seu velório ou antes. Como dizem os Alicantinos, espertos em negócios: “nunca compre de quem comprou. Compre de quem ganhou ou herdou porque nunca soube quanto custou”. Paco, não envelheça sem nada. Nunca se sabe o dia de amanhã. Dinheiro compra até amor sincero. O velho rico que manca, baba ou faz xixi fora do vaso é excêntrico. Todos querem sua companhia. O pobre é coxo e porco (un cochino). Estou lhe escrevendo para me provar que estou vivo, embora busque todo dia uma forma de acelerar meu encontro com a morte. Esta é a última carta. Lembre: se envelhecer pobre e as pernas um dia não obedecerem, não importa que se arraste, fuja pela janela antes da ambulância chegar. Un beso do tio Firmino.

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