Antonio Delfim Netto (*)
Com certa freqüência a imprensa divulga interessantes “previsões” sobre o comportamento da economia mundial em prazos bastante longos. Há algum tempo vimos que “em 2050 a pujante economia americana já não será a primeira do mundo… Projeções “científicas” indicam que a China (ela está em todas!) ultrapassará os EUA e terá, um pouco atrás, a companhia de três gigantes emergentes, a Índia, a Rússia e o Brasil…” Mais recentemente um documento publicado por importante empresa de pesquisa dos Estados Unidos prognostica um “brilhante futuro” para o Brasil que, de acordo com as projeções, vai se situar entre as cinco maiores economias mundiais em 2022, quando estiver comemorando os 200 anos de sua independência. Ele terá a honrosa companhia da China (que será a primeira!), dos Estados Unidos e possivelmente dos outros dois citados, “se o seu crescimento continuar no ritmo atual”.
Não creio que sejam totalmente inúteis essas “previsões”. Em alguns casos até podem ajudar a melhorar a nossa auto-estima, entusiasmar as pessoas e governos. Mas elas trabalham com prazos tão longos, com hipóteses de um futuro tão remoto, que na realidade o que elas nos dizem, mesmo, é que… temos futuro. O Brasil sempre será um país importante: temos espaço geográfico, densidade demográfica bastante razoável para o nosso tamanho, trabalhadores inteligentes e diligentes que não se intimidam diante da velocidade dos avanços tecnológicos e empresários competentes, capazes de absorver a tecnologia moderna, correr os riscos do negócio e rapidamente conseguir ganhos de produtividade e lucros. E temos, no momento, um governo que vem ganhando merecidamente a confiança da sociedade para seu projeto de desenvolvimento.
Quanto aos “resultados” das projeções, é preciso cair na real. Há vinte e cinco anos quase ninguém sequer suspeitava que a China poderia sair da escuridão da “Revolução Cultural” e rapidamente substituir Mao e sua economia centralizada pelo pragmático Deng e seu desenvolvimentismo selvagem que hoje se apresenta como o grande “case” de sucesso do capitalismo global. Na outra extremidade, seria razoável admitir que o Brasil, um exemplo de progresso econômico nos primeiros 80 anos do século passado, fosse aceitar viver os últimos vinte anos praticamente sem crescimento e acumulando recordes de desemprego? Em 1984, a China exportava menos do que o Brasil e corria atrás de nós, muito próxima da Coréia do Sul. Hoje, a China exporta cinco vezes mais e a Coréia três vezes mais.
Em lugar de trabalhar com hipóteses mirabolantes para daqui a 20 ou 30 anos, vamos cuidar deste final de 2004 e trabalhar para construir mais em 2005, 2006 e 2007… Temos que aprender a vigiar para que não se repita o atraso dos últimos vinte anos. Não adianta procurar a culpa lá fora, porque fomos nós que permitimos que o câmbio fosse congelado cinco vezes em apenas 15 anos, o que paralisou nossas exportações e “congelou”, também, o desenvolvimento.
O Brasil será aquele que formos capazes de construir. Podemos fazer um futuro tão bom ou melhor do que as projeções apontam para China, Índia ou Rússia. Nossas instituições estão funcionando, o Legislativo vota as Leis (com todas as dificuldades que não são diferentes no resto do mundo) e o Judiciário mantém as suas prerrogativas de decidir com independência, como se viu nos recentes julgamentos do STF e do STJ. Basta que não desperdicemos as condições que hoje, depois de muitos anos, nos estão sendo oferecidas.
(*) E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br