Antonio Delfim Netto (*)
Quando começou o governo em 2003, a economia brasileira estava refém da vulnerabilidade externa e se debatia internamente com a recidiva de uma inflação que já apontava para uma taxa anual superior a 30%. Havia uma grande desconfiança sobre a capacidade da nova equipe em administrar a situação de modo a recuperar a credibilidade abalada nos últimos meses do governo FHC. Na emergência, a equipe obteve o apoio do Presidente Lula para a adoção de medidas duras, sem medo da impopularidade: a Fazenda ousou aumentar a meta do superávit primário, buscando tranqüilizar os credores e o Banco Central subiu os juros para conter ainda mais a atividade econômica e reverter a expectativa de elevação dos preços.
Controladas as primeiras emoções, melhorou a percepção externa sobre a disposição brasileira de honrar os compromissos decorrentes das duas enormes dívidas construídas na octaetéride fernandista. Internamente reverteu-se a expectativa da inflação. Com poucos meses de governo, ajudado pela performance brilhante das exportações e pelos saldos comerciais proporcionados pela expansão da agroindústria, o “risco Brasil”P tinha caído a um terço do que era no início da transição. No país, em maio de 2003 já se revertera a expectativa de alta da inflação e pouco se duvidava que ela ficaria dentro da meta para 2004.
A partir desses resultados era de esperar que o rumo da política econômica seria orientado para o crescimento, com a mesma firmeza e um pouco da ousadia (política) demonstrada para acalmar credores e afastar fantasmas do mercado. Não se poderia imaginar o Banco Central persistindo em duelar com uma inflação morta, interrompendo a queda dos juros que impõe à sociedade um enorme custo social em termos de crescimento e emprego e ainda recriando a desconfiança original sobre o problema da dívida interna! É incrível como estes “cientistas” do Conselho de Política Monetária não entendem que são os seus próprios equívocos que produzem a volatilidade que atualmente se verifica. Quando as atas de suas reuniões informam que o juro pode subir por conta de uma inflação que só eles enxergam, atrás disso vem o câmbio e a certeza de queda do Produto, o que produz a indicação perversa que eleva a relação Dívida Líquida/PIB. É essa elevação a responsável pelo aumento da incerteza, pelo clima de insegurança que retarda os investimentos. Por conta da teimosia do COPOM e da falta de direção do Banco Central, magnificam-se os sinais da vulnerabilidade externa e se condena a economia brasileira à estagnação, como vem acontecendo desde os tempos da “ancora cambial”, cuja manutenção dilapidou os bons resultados do plano Real.
(*) E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br