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Senhoras e Senhores!

João Baptista Galhardo

Senhoras e Senhores. Duas palavras que precedem um comunicado, um aviso, um discurso, enfim uma manifestação oral. Antigamente os exames orais do ginásio, colégio e dos cursos superiores, tiravam do aluno pelo menos o temor de se expressar oralmente. Primeiro porque tinha de enfrentar uma banca examinadora, e segundo porque assistindo ao exame dos colegas tinha a oportunidade de aprimorar a comunicação com a falha e acerto dos demais. Hoje, infelizmente, a juventude por falha do ensino, sem exame oral e a inserção de testes, está com o vocabulário, cada vez mais curto: “tá legal”. “Falou”. “É isso aí”. “Beleza”. “Beleza pura”. “Olha o cara meu”, “0k”, “Vamos nessa”, “Tá tirando uma”. “E tipo assim”…Não existe nem mesmo coragem para a entrega pessoal de um currículo, às vezes abandonado sobre o balcão de uma empresa, com o temor de ser chamado para uma entrevista. Muitos candidatos a concursos não se inscrevem por estar previsto um exame oral. Tive oportunidade de ver e ouvir brilhantes oradores como Carlos Lacerda, Emílio Carlos, Ademar de Barros, Jânio Quadros, Auro Soares de Moura Andrade, Américo Marcantonio. Ainda garoto fui à praça pública de Araraquara para ver e ouvir Getulio Vargas. Aquele homem de pequena estatura quando pegava o microfone e dizia ô tra ba lha do res do Brasil ô, se agigantava e fazia o público ir ao delírio. Isto sem falar nos grandes oradores de nossa cidade, políticos e tribunos de Júri. Só não digo o nome de todos pelo temor de cometer injustiça com o esquecimento de alguém. O segredo do discurso está na capacidade de síntese. Esta quando não agrada pela forma, substância e estilo, tem a grande virtude de não saturar. Mas também conheci oradores bisonhos, sem qualquer experiência e de curto vocabulário. Certa vez um vereador que acabara de comentar um projeto de lei, ouviu do parceiro ao lado “Vossa Excelência acaba de se revelar um verdadeiro exegeta”. Não sabendo o significado da palavra exegeta (comentador, crítico, principalmente interprete), revidou imediatamente “exegeta é a sua mãe”. Conheci um político, já no crepúsculo de sua carreira que costumava lamentar “eu me dou tudo de si e ninguém reconhece”. Advertido por alguém corrigiu “eu si dou tudo de mim e ninguém reconhece”. Ficou pior. Araraquara teve um fanático em fazer discursos. Vamos chamá-lo de Professor Plácido. Falava na inauguração de ponto de ônibus, batizado, crisma, casamento, formatura do ginásio, colégio, conclusão de curso de datilografia, enterro, etc. Há muitos anos faleceu uma pessoa muita querida na cidade. Cidadão contra o qual não havia nenhum fato desabonador. Muito popular. Morreu de morte súbita, ainda com as cartas de baralho na mão, jogando cacheta com os amigos no salão do Sindicato do qual era Diretor. Naquele tempo não havia velório público ou particular. O corpo era velado na própria residência que ficava cheia de amigos, políticos e curiosos. Nesse velório compareceu o Professor Plácido e pediu para falar no túmulo, em nome da família. Não deixaram. Em nome do Sindicato? Também não. O Presidente falaria. Em nome da Cidade? O Prefeito não permitiu. Ele mesmo faria isso. E em nome dos companheiros de pescaria? Também não. Já havia orador escalado. O enterro percorreu respeitosamente bons quarteirões até chegar ao cemitério. O Professor Plácido acompanhou chateado pelas recusas. Na hora do sepultamento falaram os oradores previamente indicados e quando o corpo ia baixar, ouviu-se “um instante por favor”. Era o Professor Plácido pedindo a palavra para agradecer “em nome do morto” os discursos ali proferidos.

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